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O Brasil é um país de realidade muito difícil para as mulheres. Com machismo presente e operante, temos taxas crescentes de feminicídio, e temos mulheres sofrendo com agressões e estupros que acontecem a cada minuto.

 

Nascer mulher no Brasil significa nascer para resistir. Espaços de trabalho e na sociedade são tirados de nós a partir do inconsciente cultural que constrói limitações sociais que pareiam nossa vida.

Segundo informações retiradas do Relatório de Desenvolvimento Humano de 2015 do Pnud, apesar de contribuírem com a maioria do trabalho global, as mulheres ganham 24% a menos pelo trabalho que executam.

No nosso futebol, temos a atleta Marta, eleita cinco vezes consecutivas a melhor do mundo que não ganha um quinto do salário de 5 milhões do jogador Neymar. O que o jogador fatura em uma semana, Marta fatura em um ano de trabalho.

Esses são apenas alguns dos pontos que mulheres ainda vivem em 2016. Convidamos Magrela, uma das mais importantes artistas do cenário urbano para contar como é sua vida pintando na rua e acompanhamos ela em seu processo de criação, na Rua Fidalga, em São Paulo.

O assédio na rua

Em um vídeo sobre você, feito pelo Sampa Grafitti, anos atrás, aconteceu de no meio da gravação um caminhão passar buzinando pra você. O assédio sexual na rua te atrapalha?

Mag: Qualquer assédio atrapalha. Qualquer assédio desfoca, muda teu humor, rouba tua energia. Qualquer desrespeito atrapalha. Na rua a gente está sujeita a todo tipo de interferência. Tanto positivamente quanto da falta de respeito. Ser mulher e ir pra rua é saber que provavelmente isso vai acontecer em algum momento do dia. Eu estar pintando não significa que vai ser diferente.

Medo

Você já sentiu medo em algum momento?

Mag: Quando eu estou pintando eu nunca tive medo. Eu nunca sofri algo que eu tenha ficado com medo. Quando estou indo pintar as portas se abrem, as pessoas se tornam bem mais gentis. As pessoas gostam de ver outras pintando na rua, então elas são mais amorosas do que agressivas. Mas, é claro, eu sei como é a realidade de uma menina negra pintando na rua. O preconceito ainda faz com que minha realidade seja muito diferente da delas. Eu sou branca, tenho meus privilégios.

Homicídios de negras aumentam quase 20% e de brancas caem 12%, diz estudo.*

Você evita alguns horários ou locais quando sai pra pintar?

Mag: Eu não evito nenhum lugar pra pintar. Eu gosto de pintar de dia, antes do almoço. Eu curto o role mais matinal. Eu não pinto a noite porque eu gosto do dia. Eu me sinto protegida quando eu tô indo pintar na rua. É como se fosse uma armadura. Quando você chega pra pintar você quebra muitos preconceitos, muitos julgamentos e é bem legal.

Eu acho que na rua você tem que se posicionar. Pra nós mulheres a rua com certeza é mais agressiva. Mas, dá pra jogar o jogo deles. Dá pra você usar a rua a seu favor. As mulheres que são mais inibidas, tímidas, que têm mais receio, com certeza é um pouco mais difícil. Mas, eu acho que é difícil estar na rua se você for assim. Quando a gente se posiciona na rua, não deixa passar quando alguém assedia você, esse posicionamento faz com que a rua seja mais fácil. Acho que você tem que ter um posicionamento mais forte, não deixar passar. Mas, ao mesmo tempo isso é muito difícil também. Por muitas vezes, pra não entrar numa briga, ou por medo, a gente se cala, se oprime. A gente acaba não falando que não é normal aquilo que a pessoa está fazendo. É tão cultural… O cara olha pra sua bunda e o olhar já é opressor!

Você acha que o ato de pintar na rua é uma forma de resistir ao machismo?

Mag: Eu acho que sim. As mulheres estando na rua é uma forma de resistir a qualquer tipo de opressão. A gente tem que ocupar os espaços públicos. Nós mulheres temos que estar em bandas, não só como cantoras e divas, mas como instrumentistas; nós temos que estar no skate, na bicicleta, na rua pintando, jogando bola. Nós mulheres temos que estar onde a gente quiser estar!

A rua é imprevisível. As pessoas são imprevisíveis. O machismo impera, com certeza, na nossa cultura e todos os dias a gente tem que desarmar as pessoas e lembrar que elas abaixem as armas. Ninguém precisa ser mais do que ninguém.

Você acha que o assédio atrapalha algumas meninas de irem pra rua?

Mag: Acho que muita mina não vai pra rua porque tem medo, ou porque se sente muito oprimida. O medo às vezes nem é tão consciente, mas ela sente essa barreira.

Eu tinha um pouco de receio no começo. Mas, o que eu vejo é que hoje em dia é muito diferente da minha época. As meninas estão indo juntas pintar. As meninas se juntaram, têm consciência do que fazem e se unem pra ir pra rua.

A gente não muda o caminho na rua, porque ali tem um grupo de caras? Então, essa é só a ponta do iceberg da opressão cultural e inconsciente que a gente carrega. É cultural a sociedade e os homens se fortalecerem no nosso medo. O mercado precisa da nossa insegurança.

Você é um dos principais nomes entre artistas mulheres hoje. Você sente o peso da responsabilidade? O que isso significa pra você?

Mag: Eu não sei se eu sou a principal. Eu pinto freneticamente há 8 anos e eu sinto que eu vim abrir as portas pra uma geração de mulheres que estão pintando na rua porque elas querem. Eu não sinto nenhum peso porque me sinto aprendendo todos os dias. Esse “peso” é uma prepotência. Estou aprendendo.

Empoderamento feminino: de que formas você acha que isso está presente na sua vida?

Mag: Ser feliz sozinha. Entender que eu sou sozinha e que eu tenho que ser uma ótima companhia pra mim e não depender de ninguém.

Confira o processo da nossa intervenção:

O resultado final:

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