Vi no FontFeed, depois de uma indicação no @ilovetypography, uma história bem incomum, ao menos em relação às proporções que adquiriu. Sou designer, e não podia deixar essa passar.



Pra quem não sabe, já faz algum tempo que a distribuição de arquivos digitais via internet tem gerado discussões mais sérias do que as que a gente tem no bar. Envolvem governos, direitos civis e, claro, muito dinheiro.

A história, em suma, é a seguinte: no dia 9 de janeiro, um dia após a instalação oficial da versão francesa da agência que tem a hercúlea e ingrata tarefa de regulamentar o trânsito de dados na internet, a agência disponibilizou em seu site a marca da iniciativa, batizada como Hadopi (de Haute Autorité pour la Diffusion des Œuvres et la Protection des Droits sur Internet). O que a agência pretende fazer é proteger os direitos de autor e os trabalhos criativos na era da informação.

Uma causa com um potencial de infâmia tão latente precisa trabalhar certinho, andar na linha e, por meio de resultados que agradem a todos, e não somente aos grandes conglomerados midiáticos, convencer a população de que o serviço que eles prestam é de interesse público, certo? Pois bem, o FontFeed nem precisou pesquisar muito pra descobrir que a marca em questão foi produzida com uma fonte pirateada. Isso mesmo. A agência utilizou, em sua marca, uma fonte (com toda a certeza via download ilegal de um ou alguns arquivos digitais) de uso corporativo exclusivo.

A fonte Bienvenue foi projetada em 2000 pelo designer Jean François Porchez para a France Télécom a título de fonte corporativa exclusiva.



Isso faz pensar em várias coisas. Qual o mérito dessas leis – às vezes absurdas – que vem sendo implantadas paulatinamente por todo o mundo sob o pretexto de proteger a informação e os direitos do autor, mas que por fim acabam sendo uma hipocrisia sem fim cujo objetivo é obviamente proteger os interesses financeiros de alguns? Sob a ótica do design, um outro aspecto também fica bem evidente: porque cargas d’água protegem os direitos de alguns autores e os de outros não? Provavelmente porque designers e seus estúdios não tem condições financeiras de bancar uma batalha judicial absurda, como foi o caso do The Pirate Bay. A situação fica ainda mais picaresca pelo fato de o erro ter sido cometido justamente pela agência responsável pela fiscalização.