Artistas talentosos com personalidade dúbia me encantam ou, no mínimo, me despertam a curiosidade. Sou dos mais céticos dos espectadores, historinhas de vida sofrida, de dificuldades raramente me convencem nesta área (arte não é assistência social, não vou comprar o cd de alguém só porque teve uma infância pobre e humilde – eles amam estas palavras!). Na faculdade, tinha uma grande dificuldade (o trocadilho não foi proposital) com professores de história que confundiam a biografia artística com a pessoal. É certo que para apreender a obra de muitos artistas é necessário recorrer a alguns fatos pessoais. Seria impossível, por exemplo, absorver a obra de Modigliani (este um exemplo clássico de artista problemático) sem se ater a certos dados de sua vida.
O alemão Joseph Beuys é um destes caras que me encantam. Precisei de uma “aula” noite afora de uma grande amiga, à base de vinho – claro! – para me considerar um entendedor mediano da obra do messiânico artista. Mas, ultimamente, quem me chamou a atenção é um escultor, um surfista quase cinquentão que se autodenomina MichelAngelo, que me adicionou recentemente no Flickr.
Ele se considera “O” Michelangelo Buonarroti reencarnado. Isso não é uma simbologia ou coisa que o valha: em seu perfil ele realmente se considera o cara “get born again”. Em princípio, o espírito jocoso se une ao espanto pelo trabalho do cara – sim, ele realmente leva isso a sério chegando ao ponto de fazer reproduções incríveis do mestre escultor. Ainda que técnica não seja mais umas das principais premissas da arte desde que artistas como Duchamp descontruíram esta ideia, é louvável afirmar que “ali tem trabalho”, como dizia um antigo professor meu.
Em seu Flickr, além de várias obras completas, há o making of de várias peças. Além do mais, ler seu perfil é praticamente uma viagem. O surfista é o Inri Cristo das artes e ofícios – e não lhe faltam seguidores!
Eu gosto dos MichelAngelos (o surfista e o renascentista) porque causam ruído, não se importam com o que, afinal, dissessem de suas pessoas, suas personalidades conflituosas, desde que pudessem e os deixassem trabalhar. Para Beuys – o xamã ariano que “curou” a América – todo ser vivo é um artista em potencial. Você só entra na onda se puder e quiser.






