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17/08/2009


Somos criados e condicionados a etiquetar o tempo todo. Temos que ter uma opinião formada sobre tudo mesmo que essa opinião seja fruto do que lemos em jornais e revistas e foi fabricada pelos especialistas em generalidades – conhecidos jornalistas.

Dizemos ‘eu gosto’ e ‘eu não gosto’ a tudo, sem nem saber o porquê.

Estamos o tempo todo etiquetando.

Como num catálogo científico, vamos limitando nossas próprias opções, vestindo nossos cabrestos, criando top 5 e dando o poder a outras pessoas para escolher por nós.

Entretanto, é facilmente constatável que esse modo dicotômico de pensamento bem-mal, deus-diabo, certo-errado não nos serve mais. Até a minha máquina de lavar roupas sabe disso!

Minha máquina de lavar roupas possui um sistema fuzzy com 10 níveis de água e jatinhos que regulam o nível adequado de água para a quantidade de roupa colocada. A minha máquina de lavar roupas entende que ela não é só cheia-vazia.

Homem-mulher, heterossexual-homossexual, feio-bonito, normal-freak…

A nossa vida é produto do caos, somos a combinação de milhares de improbabilidades, como eu posso estar satisfeita olhando uma parede branca com um quadro pendurado?

É suficiente para mim aceitar essa hierarquia imposta há séculos atrás num pensamento dicotômico de quadro-observador, artista-homem comum, deus-escravo? Essa imposição serviu para afirmar uma classe dominante, para mostrar através da sua pintura a óleo sua pompa e possessões, para fazer com que eu me sinta ‘not enough’, nunca boa o suficiente e queira ser boa o suficiente perseguindo um ideal que jamais vou alcançar.

Não é ‘orgânico’, não é natural, não coincide com todo o caos e as milhares de combinações e incertezas existentes dentro de mim. Não sou sim nem não. Não ‘tenho que’ ter uma opinião fechada sobre nada, não ‘tenho que’ ter posição firme sobre algo porque corro o risco de não ter personalidade segundo as pessoas a quem otorguei poder sobre mim.

Sou um caos interconectado com todos os seres. A arte para esse meu ser também.

>> Referências: capítulo 1, Modos de Ver, John Berger (post e post); palestra Cabello & Carceller (post); Política del Acontecimiento, Maurício Lazzarato; Enredamaderas de Pablo Reinoso exposta no Malba em Buenos Aires.

>> Aos que aspiram a famosa parede branca, entendo como uma metáfora de quem aspira compartilhar suas obras com outras pessoas e respeito essa aspiração. Para mim, a vivência de uma obra de arte pode facilmente e intuitivamente ir bem mais além da parede branca.

Por: Sergio
14/08/2009


Assisti a uma palestra na Bienal Viento Sul de duas artistas espanholas: Cabello & Carceller, cuja obra questiona os gêneros e seus estereótipos. Foi muito interessante seu enfoque: os gêneros e as categorizações excluem. Você é homem ou mulher? Gay, bi, straight? Arte ou design?

Contra essa exclusão, fruto da vontade de categorizar tudo, elas preferiam chamar a sua arte -e a elas mesmas- de ‘degenerado’ (termo que -disseram- tem uma forte conotação com a categoria que os nazis fizeram a respeito de certas obras modernistas e de vanguarda, comparando elas com fotografias de pessoas deformadas.

Procurando saber mais sobre essa classificação nazi, achei o documentário Arquitetura da destruição (Undergångens arkitektur) do diretor sueco Peter Cohen. Veja para conhecer sua visão sobre as motivações estéticas do regime nazi, na suas palavras, “uma idelogía criada por artistas fracassados”.

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