O Descanso do Guerreiro, escultura em bronze de Xico Stockinger
Em pé, Carlos Drummond de Andrade lê para Mário Quintana, sentado em um banco. Mais um interessante conjunto escultórico eternizado pelas mãos de Xico Stockinger, em peças de bronze localizadas na Praça da Alfândega de Porto Alegre. E era em locais públicos e movimentados, como a Praça da Sé em São Paulo e o Parque da Escultura no Rio de Janeiro, que o artista travava seu diálogo com o público brasileiro e deixava impressões talhadas na paisagem urbana.
Sobre Stockinger, escreveu o contemporâneo Iberê Camargo: “Foi exatamente no sul que Xico criou seus imortais guerreiros, sempre prontos à luta, armados de escudos e pontudas lanças. Quixotescos, eles existem, heráldicos, no intemporal da Arte”. No mesmo momento dos anos 70, outros grandes autores como Erico Veríssimo, Millor Fernandes e Luis Fernando Veríssimo discutiram a iconografia de Stockinger, que deu às próprias obras a capacidade de ampliar a visão do observador para além do objeto estático. Em séries diversas, Stockinger conta histórias de heróis e guerreiros, e traduz muito da cultura latina que absorveu quando se naturalizou brasileiro.
O Descanso do Guerreiro, primeira exposição individual póstuma de Francisco Stockinger no MASP amplia a visibilidade de seu trabalho, uma vez que foram poucas as mostras individuais do artista em museus de outros estados do país. Aberta ao público na última 5a feira, a mostra fica em cartaz na Galeria Clemente de Faria, Nível -2 do MASP, até o dia 22 de agosto de 2010.
São 67 obras do artista que, além da escultura, apostou no uso de diferentes plataformas de expressão ao longo de seus anos de produção. Ao todo, o MASP exibe 32 esculturas em médio e grande porte em bronze (incluindo magrinhas, gabirus e mulheres sentadas), 2 esculturas em madeira, 1 em pedra-sabão, 8 mármores, 5 objetos utilitários e 19 gravuras e desenhos – sendo um deles o retrato de Stokinger feito por Flávio de Carvalho.
Destaques da mostra para as peças das séries Guerreiros, Sobreviventes e Gabirus. Com esta última, Stockinger expandiu o conceito da palavra para além da tradução “gabiru-rato-preto”, mas para a imagem do trabalhador franzino que teve seus sonhos esmagados pela pobreza nordestina. Dessa forma, tal qual Portinari, o artista faz seu registro autoral sobre a miséria brasileira no último século.
Stockinger morreu em 2009, aos 89 anos, deixando erguido seu exército de guerreiros, gabirus, corpos alongados e imperfeitos, sujeitos à toda alteridade do mundo.