É bobagem pensar que alguém pode produzir em nome de um grupo, de um país ou de um continente, da mesma forma que pode vestir a camisa e jogar um jogo da copa. Ou pelo menos isso não entra na minha cabeça.
Porém, existe algo em comum em todos os artistas que é a escuta, para dentro ou para fora . Quão conectados estão os americanos com a sua terra? – foi a pergunta que Rodolfo Kusch se fez lá por 1955. A cultura ocidental leva séculos conjurando contra o caos que implica viver no mundo – a cidade e suas muralhas, a cidade e o que flue para ela – tudo nos indica que o homem está se tornando mais poderoso que seus deuses. Junto com as suas cidades, o homem foi edificando também sua estrutura intelectual, sua assepsia que pouco a pouco foi esquecendo essa terra.
“Quando você sobe para chegar a igreja de Santa Ana del Cuzco –que está no alto de Carmenga, perto de onde em outros tempos havia um adoratório dedicado a Viracocha – se experimenta o cansaço de uma larga caminhada. É como se se remontassem vários séculos ao largo dessa rua Melo, rodeada por antigos bodegas. Ali passam as ruas fedorentas com todo o velho compromisso com verdades desconhecidas.
Se sente deslizar pela pele o olhar pesado de índios e mestiços com esse afã de nos segregar, como se defendessen sua impermeabilidade. Porque é certo que as ruas fedem, que fede o mendigo e a índia velha, que nos fala sem que entendamos nada, como é certo também nosso extremo assepticismo. E não há outra diferença, nem tampouco queremos ver-la, porque a verdade é que temos medo, o medo de não saber como chamar tudo isso que nos acossa e que está fora e que nos faz sentir indefesos e encruzilhados.
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