Review | Lide 2011

Imagens falam. Dá pra constatar só de ver as fotos do Lide, que aconteceu em São Paulo, nos dias 4 e 5 de novembro. Não precisa nem ter estado entre os 231 ouvintes que compareceram ao Teatro Casper Líbero para sacar a abrangência de um evento que está, desde 2007, discutindo linguagem e design em torno de um foco essencial: a informação. Entre algumas (poucas) reclamações sobre o som dos microfones, muito pôde ser extraído das atividades.

Palestras contaram com os nomes: Francisco Amaral, Carlos Monteiro de Portugal, Gabriel Gianordoli e Jorge Oliveira, além dos quatro apontados como preferidos pelo público presente: Crystian Cruz, Javier Errea - atração de Lisboa responsável pelo diário i aclamado por ter "o melhor design do mundo" e Alberto Cairo - palestrante desde o primeiro Lide, costuma reforçar em seu discurso a ideia de encarar a infografia como parte integrante da comunicação, e não um derivado do design. Além destes, o italiano Francesco Franchi - verdadeiro ícone no que tange à criação de revistas italianas - participou da conferência por vídeo.

Uma das boas novas de 2011 foi a implementação de workshops no circuito do Lide. Os 3 workshops da vez, que envolviam a criação de capas, infografia e projeto gráfico, receberam toda estrutura necessária de computadores e softwares para dar suporte aos 68 participantes inscritos. Mas como os conceitos ali apresentados não se limitam apenas ao uso do computador, pairou a criatividade. Citando como exemplo Rodrigo Maroja, diretor de arte das revistas Placar e Runner's World, a aula que ministrou sobre Projeto Gráfico reforçava princípios básicos que independem do computador: "Eu optei por trabalhar com papel, cola e tesoura. Nada de computadores. São ferramentas universais que qualquer um consegue manusear e, mais importante, ficar atento aos conceitos e ideias, sem se preocupar em entender como trabalhar com um software". O grupo que deu as aulas durante o 4º Lide ainda teve Luis Iria (diretor de infografia na Ed. Abril) e a experiência do diretor de criação José Pequeno A.Neto na criação de capas de revistas da Editora Globo.

O editor adjunto de arte da Folha de S.Paulo e organizador do Lide desde a primeira edição, Mario Kanno, conversou um pouquinho com a IdeaFixa para contar sobre o evento. Não só neste ano Kanno divide a responsa com Renata Steffen da Superinteressante, e o colega de trabalho na FSP Lucas Tófoli Lopes. A produção ficou por conta da nossa estimada Bebel Abreu - do Mandacaru Design:

[IF] Quais foram as suas impressões sobre o uso da sede na Cásper Líbero? Você acredita que o local favoreceu (em termos de palestras e workshops) para a absorção dos conhecimentos ali apresentados?
[MK]
Achamos ótima a parceria com a Fundação Casper Líbero. O curso de jornalismo da Casper é bastante respeitado e a localização – avenida Paulista – deu um charme ao evento. A estrutura oferecida também foi muito boa. Os workshops contaram com computadores e softwares de última geração, além de ótima equipe de apoio. Nas palestras tivemos alguns problemas pontuais mas, no geral, o espaço e conforto do auditório favoreceram o debate até o final do evento.

[IF] Quando se trata de um evento que tem como público tanto jornalistas quanto designers, como integrar o conteúdo de modo equilibrado para a compreensão geral?
[MK]
Esse é o nosso grande desafio. Lide é uma sigla para Linguagem, Informação e Design Editorial. Não nos interessa discutir apenas “design pelo design“, nossa visão é pelo lado da informação, das alternativas de linguagem jornalística. Não tem como fazer isto sem o apoio e colaboração dos jornalistas. Felizmente os jornalistas estão ficando mais preocupados com o visual e em como ele afeta o conteúdo e, do outro lado, os designers estão mais atentos a informação. Nosso trabalho está tão conectado ao conteúdo que eu, por exemplo, me considero hoje mais jornalista do que designer. Na Folha, às vezes, perco mais tempo cuidando do texto do infográfico, da sequência da narrativa visual da página, do que no acabamento. 

[IF] De que forma se desenvolveu a curadoria para o circuito e quais os nomes que você acha que faltaram nessa leva? A falta do Franchi foi um susto?
[MK]
Primeiro nós elaboramos uma lista de pessoas que nós mesmos consideramos relevantes. Depois, fomos separando para cobrir o máximo possível de temas, indo do impresso para o iPad , do visual para o texto jornalístico. Não penso em nomes que faltaram agora, porque espero que a gente consiga trazê-los nas próximas edições. O caso Franchi, sim, foi um susto. Principalmente por que, pela primeira vez, o evento era pago e faltava pouco tempo para o evento. Felizmente tivemos agilidade em conseguir substituições e assim o número de reclamações foi baixo. Mas ele foi camarada, mandou um vídeo e promete q ainda vem em outra oportunidade.

Na pergunta abaixo, Kanno me corrigiu. Quando lhe conferi os louros da renovação do design editorial da Folha de S.Paulo, ele fez questão de citar os nomes corretos: "Eu não sou o único responsável por nada isso. O último projeto gráfico da Folha é de autoria de Eliane Stephan com a participação da Editoria de Arte da qual sou editor adjunto. O editor é o Fabio Marra. Até ajudei diretamente na elaboração do Ilustríssima e de outros cadernos e posso assegurar que muitas “novidades“ que o Ilustríssima e outros cadernos trazem foram criadas em conjunto com a equipe editorial de cada produto". De qualquer forma, seguimos a discussão:

[IF] Em cadernos como o Ilustríssima, já se vê uma diagramação mais ousada e dinâmica. Entretanto, muitos ainda resistem a essas quebras de barreira. Como você enxerga, pessoalmente, o avanço dessa renovação no Brasil?
[MK]
Realmente, alguns grandes jornais trabalham com “templates“ à exaustão, repetindo fórmulas, fazendo todas as páginas iguais. Na Folha, eu, o Marra e toda a equipe de design e infografia tentamos fazer diferente todo dia, às vezes errando, às vezes acertando, mas sempre tentando e com total apoio da Secretaria de Redação em ser ousado e criativo. Muitas soluções a gente consegue fazer sem ferir o projeto gráfico – ainda que o projeto não seja visto em nosso jornal como uma camisa de força, mas como uma diretriz e padrão mínimo de qualidade gráfica e editorial. Tipo, seguir um projeto gráfico é obrigação, fazer melhor sem descaracterizar o projeto é o desafio.

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