
A arte contemporânea de Buenos Aires é o tema da mostra PREGUNTAME COMO! Os protagonistas são os argentinos Nicolás Sobrero, Martín Legón, Gustavo Eandi, Andrés Bruck e América Sanchez, o francês Paul Loubet e o taiwanês Lin Yi-Hsuan. E o diretor do banho visual é Tristan Rault – galerista e colecionador franco-argentino – que desenvolveu todo o argumento e curadoria da mostra que acontece na Galeria LOGO de São Paulo, até 3 de dezembro.

“Quer economizar nos impostos? Pergunte-me como!” “Perca peso agora! Pergunte-me como” – essas e outras promessas incertas que vemos no dia-a-dia remetem ao tema da mostra que – longe de ser uma promessa incerta – apropria-se do slogan para uma segunda interpretação: a comunicação interpessoal nos bastidores da arte. Tendo por epicentro a agenda do Sr. Tristan Rault e a rede de contatos formada pelos artistas – cada um deles conhece, pelo menos, um dos outros pessoalmente – a mostra totaliza 170 obras que mesclam técnicas e suportes diferentes.
Mas Tristan Rault tem ideias muito mais relevantes sobre o assunto, conforme tive o prazer de verificar em entrevista cedida gentilmente à IdeaFixa, em meio ao caos das duas semanas de montagem da mostra, sobrou um tempo para falarmos sobre pintura contemporânea e o contexto artístico contemplado por Rault em seu constante trajeto São Paulo/Buenos Aires.
:: IDEAFIXA ENTREVISTA :: TRISTAN RAULT ::
[IF] Quando surgiu a ideia de PREGUNTAME COMO? Ela foi desenvolvida especialmente para a LOGO ou vem de uma iniciativa pessoal?
[TR] A ideia dessa curadoria veio de diversas conversas com artistas e galeristas amigos. Eu costumava dizer em palestras que a amizade é o câncer da curadoria; uma frase sempre polêmica pensada para falar das panelinhas na curadoria contemporânea, onde o curador acaba expondo quem ele/ela anda xavecando ou a filha do colecionador mais importante e depois tenta amarrá-los visualmente, com textos e pretextos impossíveis. Mas nessa frase achei algo interessante, nessa ideia da influência da afinidade humana entre os artistas, e criei PREGUNTAME COMO! justamente como ponto de partida para um olhar diferente, para que outros possíveis interessados possam retomar e contribuir com essa pesquisa antropológica nas artes. Rapidamente entendi que aquela bela frase não era necessariamente acertada em todos os casos.

O processo final de seleção dos artistas foi desenvolvido junto a eles por meio de conversas, onde perguntava a cada um deles com qual artista ele tinha afinidade humana, e escolhia um dessa lista de 5-10 artistas. Geralmente os artistas amigos, que conhecia bem, com os quais já tinha trabalhado ou dos quais já tinha comprado obras alguma vez. E repetia essa entrevista com o escolhido. Foi quando vi o nome do América Sanchez na lista do Nicolás Sobrero que, como o Nicolas já tinha trabalhado com cartazes de rua, fechou esse círculo perfeito de 7 artistas – quase magicamente numa revisita a Teoria de Seis Graus de Separação – e a curadoria final.
O projeto não foi criado especialmente para a LOGO mas sinto que só poderia ter sido desenvolvido com e na LOGO. Pela visão, apoio e esforço necessário para semelhante produção. Acabou sendo o lugar perfeito para expor as ideias e obras dos artistas.

[IF] Foram quantos dias de montagem?
[TR] Foram 2 semanas de montagem e produção da maior parte das peças. Um tempo maior do que costumamos usar na LOGO pelo fato de tratar-se de uma exposição de ambição museológica, com salas novas a serem construidas, molduras de 200 kgs, 170 obras, mais de 20 pessoas que vieram de fora, todos os artistas in situ, etc… Foram duas semanas incríveis, de aprendizagem humano constante para todos.
[IF] O nome da mostra remete a “promessas incertas” que vemos no dia-a-dia e se apropria deste slogan para uma segunda interpretação. Qual seria essa interpretação?
[TR] Eu sempre vi a abstração desse slogan/logomarca como um chamado à atenção e à comunicação humana, vigoroso mas sempre inocente, quase naïf. Como uma pessoa pedindo pra um desconhecido bater um papo com ela, maquiando essa carência humana numa conversa sobre impostos ou perda de peso. É uma visão meio romântica de um macro-esquema empresarial quase diabólico, mas me permitiu pensar nessa relação humana nas artes: como a afinidade humana pode ter um jeito interessante de amarrar artistas – começando a conversa na relevância humana e deixando a artística num segundo plano – até que, no final, você consegue entender que nunca tem como separar 100% e a exposição acaba sendo de um apelo visual inegável.

[IF] Você está sempre viajando entre Argentina e Brasil, e PREGUNTAME COMO passa a ser uma apresentação da cena atual de Buenos Aires para o público de São Paulo. Quais são as diferenças entre as artes que você vê nos dois países e o que a sua exposição traz de novo para os apreciadores do Brasil?
[TR] Mantenho uma galeria lá [em Bsas], junto a um ateliê onde rola um programa de residências artísticas, uma coleção de arte e a minha familia completa. Acho que ter mudado para São Paulo não tem sido tão complicado assim porque eu (além de viajar todos os meses pra lá) sempre tenho uma parte da minha cabeça em Buenos Aires. Isso, na origem do projeto, me levou a não pensar essa exposição com a relevância transcultural que tem, mas como algo óbvio que acabaria plasmando toda a experiência recolhida do trabalho dos últimos anos numa única mostra. E isso era Buenos Aires com todos os seus matizes: alguns artistas radicados fora, outros que nunca saíram da Argentina e outros que adotaram Buenos Aires como o lugar deles no mundo.

Sempre achei essa definição sentimentalista da nacionalidade como um ponto muito relevante no intercâmbio artístico de um lugar, e Buenos Aires exerce isso quase a perfeição, sempre sendo “infestada” e infestando paralelamente.Mesmo sem ter sido concebida olhando pra outras cenas artísticas, PREGUNTAME COMO! acabou sendo um ponto de referência onde a diferença nas propostas com respeito a arte brasileira acabam sendo bastante gritantes. Isso foi algo que todos percebemos só na hora de ver a exposição totalmente montada. Desde o uso da cor, a presença do pessimismo como artificio criativo ou até o uso quase fanático do papel como suporte podem provar esse contraste de propostas, onde ambos os lados se nutriram fervorosamente no curso dessas 2 semanas de convivência.

[IF] Em PREGUNTAME COMO predomina a pintura. No último ano, quando o curador do MASP realizou a mostra de Pintura Alemã Contemporânea no museu, afirmou aos jornais que “a pintura mundial está viva, ainda que tenham decretado a morte dela várias vezes“. Logo levantaram discussões sobre um teor “ultrapassado” que muitos intelectuais relacionam à pintura. E você? Como vê a situação da pintura contemporânea num contexto atual?
[TR] Acho que nesse aspecto estou bastante encaminhado com o Teixeira Coelho, sendo que nunca nem considerei a decadência da pintura. Ou, se existiu, eu estava muito ocupado pintando para me dar conta disso.

[IF] Você pensa em levar PREGUNTAME COMO para outros países? Se não, quais são as próximas investidas que você tem em mente como curador?
[TR] PREGUNTAME COMO! foi um projeto que, pela natureza quase de experimento antropológico dele, teve a possibilidade de se adaptar a qualquer cena artística. Uma vez terminada a exposição, post production e com material promocional completo em mãos (website, registro das obras, curta, blog, etc) estarei viajando para mostrar o projeto fora, para possíveis adaptações com outras cenas. Também estou trabalhando em vários outros projetos de curadoria (que contarei para IdeaFixa quando estiverem mais avançados), com os quais estou igualmente entusiasmado.
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