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Ok. Super-heróis são um “monte de caras anabolizados vestidos com roupas multicoloridas, com a sunga sobre a calça.” É, você já deve ter ouvido falar deles assim. Nah, nem todos são assim. E mesmo quando são assim podem ser legais. Há cérebro nessa indústria. Si, se puede. Quem fala desse jeito é porque cresceu e tem preguiça. Tudo bem, é compreensível, difícil acompanhar tudo, assim como em todos os setores da cultura, é difícil filtrar coisa boa em meio a tanto lixo. Afinal de contas, sai esse tipo de quadrinho aos montes, toda quarta, nos EUA. Nesta última quarta foram uns 90, só da Marvel Comics e da DC Comics (pode tirar a prova aqui –> http://www.comiclist.com). As maiores. Pra ficar nisso. É, dá preguiça. Mas como fui alfabetizado com isso, não consigo deixar de ler, mesmo depois de velho.

Quem diz que só tem porcaria entre os super-heróis na verdade está preguiçoso. Bom, estou preguiçoso mas leio tudo quanto é coisa de quadrinho, leio de tudo,  gosto de tudo, menos Cersibon e coletâneas montadas a esmo. Então, o que quero dizer é que, de vez em quando, vou escrever aqui (sempre que for possível) o que gostaria de dividir sobre as coisas legais de super-heróis que meus amigos não têm mais saco de ouvir. Bando de velhos. E, assim, você que não entende nada (ou que é preguiçoso) pode ficar sabendo o que está acontecendo.

Ok, vamos lá. Tem algo emblemático aqui. Prometo.

*FAZ-SE MISTER DEIXAR CLARO QUE EM TODOS OS BOLETINS COMO ESTE HÁ SPOILERS DE NÍVEL MÉDIO NA ESCALA OMELETE DE ESTRAGA-PRAZERES. A DIFERENÇA É QUE O AVISO É VISÍVEL*



Antes de Invincible Iron Man #20 (essa capa bonitona aí em cima), um resumo. Bem, tem esse cara, chamado Brian Michael Bendis. Ele escrevia um gibi indie bem legal, chamado Powers. Sobre detetives que investigavam morte de super-heróis. Bem, ele foi promovido a novo arquiteto do universo Marvel, há uns tempos aí. Simplesmente porque ele sabe como um gibi de super-herói pode ser legal.

Bem, antes de ficar criando grandes sagas de verão, Bendis (assim como Geoff Johns na DC Comics — isso eu conto depois) passou a entender melhor a cabeça dos jovens e dos velhos fãs. Por exemplo, o que era mais legal na Era de Ouro dos quadrinhos (vide wiki), de Stan Lee cia. na Casa das Ideias, é que por trás do soldado, do homem dentro de uma lata, do cabaço que vira um monstro verde, tinha um cara como eu e você. Bendis começou a pensar nisso, só que na era “orkut-facebook-twitter” de hoje. Pensou naquele moleque (menino ou menina) que pega um gibi (nunca vou esquecer que o talentoso Gazy Andraus disse em um perdido GT de Intercom que “gibi” é um doce em algum lugar do Nordeste, mas, ah, gibi aqui não é pejorativo) de herói hoje, no adolescente que, mesmo com outros Ipods e games à disposição, continua lendo aventuras gráficas. Algo que outros roteiristas (a exemplo do endeusado Frank Miller) deixaram de fazer há pelo menos 20 anos.

Pra começar, a audiência de hoje não acredita mais na “sci-fi bullshit” do tipo “capacitor de fluxo”: não cola mais viajar para o futuro com um treco em forma de “Y” a partir da ideia de um velho cientista que bateu a cabeça no banheiro. Os personagens não podem ser só caras poderosos. Hoje em dia quaisquer vampiros ecochatos e bruxinhos inexpressivos que demoram 7 filmes para soltar uma bola de luz têm poderes. Os super-heróis têm que ser diferentes e parecidos conosco, de alguma forma. Eles precisam ser mais verossímeis, os filmes ensinaram isso, mesmo à beira de um refluxo sobre esse conceito.

Então, Bendis , como McCloud sugeriu em discursos inspirados,  foi no núcleo do “Marvel way of comics”, gerado nos já distantes anos 60, para reformular uma linha temporal desconexa.  Para ele, isso é claro, seria inconcebível ter na mesma equipe um soldado romântico e ao mesmo tempo durão (que matou um monte de gente na 2a. Guerra Mundial) com um playboy beberrão cardíaco de meia-idade, junto de um deus nórdico arrogante, na mesma equipe. Por isso, ele os separou. E esso foi o primeiro grande passo. Foi verossímel, no que é possível. Deu personalidade, consistência e motivações a personagens que pareciam todos vindos de um mundo ultrapassado.

Capitão América, mais capitão e menos América, brigou feio com o Homem de Ferro na Guerra Civil e Thor também sumiu, meio que uma “morte para imortais”. Os pilares do universo Marvel já eram. Não me venham com mutantes, eles são legais, têm baixinho indestrutível, cara feito de aço, teleportador, exterminador do futuro. Mas os heróis da Era de Ouro morreram. Simplesmente porque não tinham mais razão de existir nos dias pós-11 de Setembro. Nenhum leitor mais jovem liga para o que aconteceu na 2a. Guerra Mundial (sequer nota a diferença do Muro de Berlim ter caído) ou para o que um Bill Gates entediado faz dentro de uma armadura de briquedo. Muito menos para a vida dupla de um deus certinho por aqui.

No plano de Bendis, todas as “sagas de verão” (vide barbaridades como Wolverine deformado e Homem-Aranha com clones, coisas dos anos 90)  inócuas, que só brincavam com o status quo em forma de retcon, passaram a ser mais dinâmicas e orgânicas. Passaram a ter uma verdadeira importância, mesmo nós, leitores, sabendo que nada vai mudar no final das contas. Depois de vários eventos, por exemplo, os heróis finalmente caíram em desgraça. Por causa de erros teimosos. Por causa de erros egoístas. Por causa de erros arrogantes. Do jeito que acontece com a gente, na vida real.

Assim, o Capitão América morreu. O Homem de Ferro passou a ser considerado o inimigo número um pela Casa-Branca-Bush sob vigilância do vilão Norman Osborn (esqueça o Duende Verde…). Thor voltou bem primal e fodão, não é mais tão humano para julgar o que é certo ou errado nesse nosso mundo sem alguém tão nobre para levantar Mjolnir além dele mesmo.

E, então, depois desse resumo bem tosco e rápido, como aquele gole de tequila ruim em copo americano sem sal e limão, chegamos ao título mais quente dos últimos dois anos na Marvel. The Invincible Iron Man (re) começou justamente com Tony Stark tentando provar que é um herói. Não para nós, claro, para ele. Egoísta. Mas, nesse caminho, tem mostrado que é mesmo um herói, daquele que você se coloca no lugar, daquele que duvida da grande coragem que tem.  Daquele que, graças a Jaga a regra número um de uma boa narrativa, torna-se outra pessoa, evolui, torna-se singular, odiável e ao mesmo tempo nobre, carismática. Do tipo que te faz rir aliviado porque, no final das contas, é um personagem de gibi. De um bom gibi para dias que não colecionam novas músicas de Michael Jackson.

Ok, sem poesia. Novo resumo: Tony Stark virou, no evento Guerra Civil, um grande idiota, iludiu Peter Parker e traiu seu grande amigo, Steve Rogers. Sem contar que sacaneou um certo deus nórdico, então desaparecido. Tudo porque achava que podia vencer os vilões sem ouvir vassalos menos inteligentes que Reed Richards. Tudo porque achava que uma das mentes mais inteligentes do universo não precisava de humanos. Humanos falham. Máquinas não.

Então, Stark descobriu que estava errado. Do pior jeito. Levou um cacete do Hulk. Steve Rogers morreu. Alienígenas invadiram a Terra. Sua frieza de máquina traiu-o. Thor voltou putinho e deu um cacete nele também (bem dado, aliás, e sem mover muita palha). Homem de Ferro é hoje simplesmente um mendigo fugitivo. Sei lá, um wanderer, um tuareg versão americana. Fora isso, o cara virou quase uma máquina de verdade, com direito a HD na cabeça, e agora precisa se livrar das informações que estão em seu cérebro pra não entregar aos “novos heróis” (vilões que tomaram o poder nos EUA no atual arco Dark Reign) o que sabe sobre os old school. E precisa formatar o ‘”disco rígido”, não só para se livrar de falhas de segurança, mas também para voltar a ser mais humano, para não ter ninguém querendo um kernel panic em seu cerebelo a todo minuto.

Tony Stark está voltando às origens, deletando seu “HD” e retomando a primeira armadura (é, aquela redonda prateada Jack Kirby style). A única Mark que consegue controlar direito hoje, mais mecânica, menos digital. Ele está prestes a ser “Disassembled”. Só para ter uma ideia, o grito de guerra dos Vingadores é “Avengers Assemble”,  algo que o Capitão América sempre gritou, incentivo de guerra para seus soldados estarem preparados, em formação de combate.

Esse momento foi preparado por Matt Fraction (roteirista que iniciou Invincible Iron Man devido ao sucesso que fez com Casanova, boa  revista inédita no Brasil, que escreveu para nosso querido desenhista brasileiro Gabriel Bá) e agora toma forma em uma revista muito legal, consolidada, sem a hesitação inicial. Fraction já mostrou que gosta do apelo visual com em Casanova e fez questão de ter isso nesta nova fase.

Assim, sai nos EUA nos próximos meses (e aqui no Brasil em um ano ou ano e meio, acho, pergunte pra Panini) uma das coisas mais legais dessa “fase Bendis“, em termos editoriais. Invincible Iron Man #20 tem um cuidado visual digno de um publisher visionário, de alguém que entende os leitores. Não só com o desenvolvimento da trama e do conceito da trama autocontida no título. Quesada (um espetacular capista), apesar de meio bobo com algumas coisas,  abre espaço para as equipes criativas terem uma visão geral de todo o universo Marvel em termos de indústria. A exemplo:  no tratamento com as cores, as fontes das letras, o roteiro e o desenho (claro), além das capas, ,entre outras coisas.

Invincible Iron Man não ganhou à toa um prêmio Eisner de “Melhor Nova Série”. A série satisfaz os nerds chatos old school (como eu, de certa forma), agrada posers e convida novos leitores. Acima de tudo, convida NOVOS LEITORES. Tipo o que o novo Star Trek fez. Aqueles leitores como você, que acham os super-heróis chatos, mas que acham esta capa sensacional. Vá por mim, artistas espertos aprenderam com Conan a maneira certa de como chamar a atenção em uma prateleira cheia de outas coisas coloridas. Aprenderam mostrando homens musculosos e garotas gostosas na capa o fato de você, pessoa pensante, talvez gostar também da mitologia moderna, os super-heróis. E achar legal. Artistas espertos como Rian Hughes, autor dessa capa.

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Enfim, o que pode-se adiantar agora depois de todo esse blá-blá-blá, se é que ainda está aqui, é que essa nova fase do Homem de Ferro não vai apenas aquecer o novo filme ou o universo crescente da Marvel/Disney nas telonas. Vai também prenunciar uma nova fase na Marvel Comics. Depois de Dark Reign, a era dos vilões, vêm aí uma nova Era de Ouro, após Siege. Uma era em que o Capitão América não é mais tão patriota-cabeça-dura-estadunidense, o Homem de Ferro não mais se culpa por ser como Eistein-e-o-dilema-do-cientista-que-cria-a-bomba-atômica e Thor volta a se rebelar por amar os humanos. Uma era em que eles fazem sentido juntos. Uma era em que você não quer ler para ver se eles vão perder para o vilão. Uma era em que você quer ler simplemente para saber como vão ganhar. Uma era que qualquer um pode gostar, seja aquele moleque entediado ou o nerd exigente. Assim como na Era de Ouro.

Assim como na mitologia antiga. Assim como a mitologia moderna deve ser para eu, você e, principalmente, para as crianças. Para novos e entusiamados leitores, que por aqui não têm mais Marcos Rey e esqueceram quem é Julio Verne ou Arthur Conan Doyle. (Bah, hoje só querem saber de Rowling ou Meyer, sei lá).

Simplesmente porque todos precisam de heróis.

Bem, ok. Claro, essa tática de Bendis é uma conhecida ferramenta de narrativa já usada de outras formas. Mas nunca de um jeito tão apropriado nos quadrinhos mensais de massa. Bom começo. Alan Moore é genial. Mas está errado. Nem todo mundo viveu drogado e miserável, nem todo mundo cresceu e se amargou o suficiente para descartar a importância dos heróis. Bastante gente precisa de heróis, pelo menos para se divertir.

Inté. Volto em breve para falar da DC Comics. Claro, com uma edição emblemática também. Não dá pra resumir em um curto espaço tanta coisa boa, mas sempre vou tentar. Até lá, fique aí com umas capas legais que também usaram elementos de design para super-heróis.

POISON_IVY_NOTO

Phil Noto é foda. Uma noção de composição vinda da publicidade que o faz um mestre em pin-ups.

GREEN_ARROW_JEAN

James Jean consegue ser flexível, brincar com identidades visuais e manter sua assinatura. Difícil hein. E genial. Ah, sim, procurem pelo trabalho dele no novo álbum da Devir Livraria que saiu por aqui. Umbrella Academy, que um dia falo por aqui com mais calma, acaba de sair no Brasil. Fiz uma resenha para a Folha de Londrina/Bonde. Logo atualizo esse texto na minha coluna de HQs que tenho em aqui.

FURY_70s

Aqui uma aula do escapista e inquieto Jim Steranko. Já viu uma capa como essa em HQs? Bah, mas isso é dos anos 70.

Legais, não?

Escute > Superchunk – Here where the strings come in