Olha vou ser sincero, vou confessar: eu sempre detestei o Superman. O cara é quadradão, é muito coloridinho, muito bonzinho, escoteirinho. Chatinho. Além disso, cresci lendo naquela época da decadência dos heróis, nos anos 80, quando os anti-heróis e as facetas ”dark” dos personagens passaram a render coisas bem mais interessantes nas mãos de Alan Moore, Frank Miller e cia.

Atualmente já não detesto o Superman. Pelo contrário, a cada ano que passa me interesso mais pela construção de sua mitologia, de suas motivações, do que ele representa e como inspira histórias criativas, o desafio intelectual. Grande parte dessa constatação se dá por causa de coisas como a minissérie ”All-Star Superman”, de Grant Morrison e Frank Quitely. Que virou animação em lançamento hoje, nos Estados Unidos.

O projeto ”All-Star” da DC Comics, pra quem não conhece, foi uma resposta às boas vendas da Marvel Comics com o ”Universo Ultimate”: uma forma de explorar artistas visionários com a recriação de seus principais ícones, dando um ”banho de loja” com elementos atuais.



Assim como Morrison e Quitely (que já trabalharam juntos em outras oportunidades, a exemplo do sensacional ”WE3”), foram convocados também Frank Miller e Jim Lee para rever Batman e Robin. Só que o sucesso de ”All-Star Superman” foi tanto que ofuscou qualquer outra publicação dessa natureza na DC Comics. A mini, em 12 números, agradou público e crítica e venceu prêmios Eisner, Harvard e Eagle em várias categorias.

O plot inicial se resume ao seguinte: Superman salva uma equipe de pesquisas em curso ao Sol e, durante a fuga das rajadas nucleares, descobre um novo superpoder, uma aura bioelétrica, ativada instintivamente. Essa habilidade inédita na verdade é parte de um processo cancerígeno devida a superexposição solar. E parte de sua morte, milimetricamente planejada por Lex Luthor.



A partir daí, vemos um Superman disposto a fazer suas últimas tarefas antes de morrer. Só que o Superman de Morrison e Quitely não é o mesmo de Jerry Siegel e Joe Shuster ou de John Byrne. Ele é excêntrico, guarda artefatos intergaláticos na Fortaleza da Solidão, uma espécie de casa/museu/laboratório, com direito até a um zoológico próprio, habitada por criaturas como um ”devorador de sóis”.

A dupla atravessa todos os melhores elementos do personagem em 12 edições: a rivalidade com Luthor, sua herança genética alienígena, o fato de ser excluído entre humanos, o romance com Lois, aventura temporal e espacial, pancadaria, Jimmy Olsen, Apocalypse, Brainiac, Solaris… Tudo de maneira criativa e muito bem ilustrada – Quitely alcança um verniz vanguardista e mantém sua aura “Moebius” ao emplacar narrativa com design inovador para padrões de super-heróis no mercado de hoje.



A animação, roteirizada por Dwayne McDuffie, consegue condensar as 12 edições de uma forma mais dinâmica, sem perder os principais momentos e mantendo o design de Quitely na construção dos personagens. Apesar da ”ausência” de Jimmy Olsen – que tem grande importância nos quadrinhos -, está tudo ali, os ”Doze Trabalhos do Superman”.

Ao final da animação, que dá vontade de chorar (é, confesso, chorei), Superman mostra a razão de ser o exemplo máximo de heroísmo e a referência do que é ser um super-herói nos anos que virão. E Morrison cumpre sua meta de ”reestabelecer seu lugar como o maior de todos os super-heróis”.

Quem procurar pode encontrar facilmente para baixar na internet, mas vale esperar os DVDs (simples a US$ 19,98 e duplo a US$ 24,98) e Blu-rays (a US$ 24,98) chegarem por aqui. Os DVDs trazem uma prévia da próxima animação homevideo da DC, ”Green Lantern: Emerald Knights” e um featurette com a visão de Grant Morrison, além de dois episódios de animação escolhidos por Bruce Timm (de ”Batman Animated”, entre outros).



Já o Blu-ray terá também conversa com Grant Morrison, comentários em audio de Timm e Morrison e a história digital que inspirou a animação. Tudo para fazer adultos crianções, como eu e você, bem mais felizes.

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