HQ e Cinema :: O super-épico The Avengers

25.04.2012 / Em cinema quadrinhos / Por Claudio Yuge

Pára tudo. Odeio ser categórico assim, até porque é bom quebrar a cara e mudar de opinião, na maioria das vezes. Só que estamos diante de um dos maiores eventos (nerd não né gente, chega) da cultura pop mundial. Os Vingadores - The Avengers (que título hein, Brasil) é demais.

Um épico super-heróico. Um divisor de águas. O melhor misto de pancadaria e humor, aventura e fantasia em uma produção do gênero. Tudo isso sem o romance tradicional. Com heróis multicoloridos vestindo colantes, cueca por cima da calça. O sonho virou realidade. Temos um universo de heróis no cinema, pessoal.

Vamos lá, digo pra vocês como aumentar ainda mais suas expectativas (sem spoilers, fiquem tranquilos). Porque, acredite, por mais que você vá com as expectativas nas alturas, ainda sim vai se surpreender. Há um bom momento para todos, seja ou não fã de quadrinhos. Ou de super-heróis.

Bom, importante é fazer uma rápida recapitulação. The Avengers é o ápice de uma estrada construída aos poucos desde o primeiro Homem de Ferro de Robert Downey Jr., com os cenários levantados em Thor e Capitão América: Loki, o meio-irmão perverso de nosso Odinson, depois de um tempo no limbo espacial, conhece uns figura costa-quente pra bancar sua vingancinha.

Munido de um cajado-gema (atenção para o detalhe hein), ele consegue uma barganha, desde que consiga o Cubo Cósmico - o tal Tessaract - para abrir um portal extradimensional, o que vai assegurar a invasão de alienígenas em nosso planeta. E quem poderá intervir? Spectreman Os Vingadores!

Porém... Desde sua criação, Os Vingadores, que muitos viam apenas como uma resposta barata à Liga da Justiça, em 1963, já apresentavam algo incomum: foram precursores das "famílias desajustadas" dos seriados da Fox, porque, ao invés de serem um "dream team" como os concorrentes da DC Comics, eram superseres obrigados a se suportarem por um bem maior.

E é justamente esse clima disfuncional criado por Stan Lee e Jack Kirby que foi capitalizado por Brian Michael Bendis e Mark Millar na série original dos Vingadores e em Os Supremos, uma releitura moderna do supergrupo. O resultado foi o sucesso e transformou a equipe liderada ora pelo Capitão América e ora pelo Homem de Ferro (até mesmo por Luke Cage) como a franquia de maior vendagem da Marvel Comics.

Obviamente, esse é o tom do filme. Como isso já foi explorado com sucesso em outra mídia, nos dois longas animados de Os Supremos, restava a dúvida sobre como isso ficaria no cinema. É aí que entra a figura importante de Joss Whedon.

O cara é superfã dos quadrinhos e sabia que tinha responsabilidade de entregar algo que pudesse ser visto sem a dependência dos filmes anteriores (Homem de Ferro 1, Hulk, Homem de Ferro 2, Thor e Capitão América, nesta ordem) e ao mesmo tempo fizesse conexões, tanto para os seguidores das revistas quanto para o público mais amplo. E o cara conseguiu. Com a dinâmica de grupo e o carisma que cada ator deu ao seu personagem.

Quem leu seu arco em The Astonishing X-Men sabe que a peça-chave de seu roteiro de supergrupo vai de encontro em como esses superseres se comportariam uns com os outros, respeitando bastante as características de cada um. E é isso que ele faz em boa parte do filme: Como dois cientistas tão inteligentes como Bruce Banner e Tony Stark se dariam bem? E uma lenda viva dos anos 40 suportaria um deus nórdico espacial? Dois assassinos em prol do bem? Pois é, tá tudo ali, com direito a muita pancadaria entre heróis.

Hulk é um espetáculo à parte. Aqui ele é como todo fã do Gigante Esmeralda gostaria de vê-lo: que na verdade é Hulk quem se transforma em Banner, não o contrário. Além de ser a criatura mais poderosa do panteão de heróis da Marvel. Loki finalmente é o semideus manipulador que todos gostaríamos de ver, com aquele sorriso sarcástico no rosto, o tempo todo.

Capitão América não é assim aquele bom moço patriota que todos aprenderam a odiar. O ego inflado do Homem de Ferro irrita todo mundo. A Viúva Negra e o Gavião Arqueiro mantêm uma dinâmica à parte e colocam um pouco de "normalidade" em um grupo de seres superdotados. Nick Fury é o cara com as mãos sujas que tenta manter a sobriedade entre o governo e o heroísmo. E, bem, o Agente Coulson... somos nós.  Os que ainda acreditam em heróis.

Tudo isso é construído com belo balanço e ritmo entre cenas de ação e construção dos relacionamentos. Sempre prezando um fluxo natural da narrativa, com efeitos especiais convincentes -- o Hulk não parece um boneco esquisito e nem uma animação tosca -- e, no momento que vai cair nas sequências piegas ou nos discursos clichês, há sempre um alívio cômico pra lembrar que aquilo tudo é pura diversão.

Os Vingadores - The Avengers colocou os filmes de heróis em um novo patamar, inaugurou um verdadeiro universo no cinema, já que antes não havia respeito com cronologia (vide os X-Men). E, de quebra, deu pano pra manga pra sequências ainda mais espetaculares (fique até o final dos créditos, vale a pena), o que, diga-se de passagem, é difícil de imaginar após o que Whedon conseguiu aqui.

Pra encerrar, acho muito apropriado reproduzir um trecho de um manifesto feito pelo escritor Michael Chabon (autor de As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay), já que Whedon conseguiu realizar o trabalho com maestria. Se me permitem, vou deixar no texto original, que é ainda mais belo.

"Let’s not tell stories that we think “kids of today” might like. That is a route to inevitable failure and possibly loss of sanity. We should tell stories that we would have liked as kids. Twist endings, the unexpected usefulness of unlikely knowledge, nobility and bravery where it’s least expected, and the sudden emergence of a thread of goodness in a wicked nature, those were the kind of stories told by the writers and artists of the comic books that I liked. The first two, very generally speaking, you tended to find more often at DC; the second two at Marvel" -- Michael Chabon.

Veja meus textos sobre quadrinhos e cultura pop no blog www.clangcomix.com e no arquivo de resenhas de quadrinhos do www.bonde.com.br/colunistas.

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  • pedro

    Massa! Confio nas tuas resenhas! Fiquei mais pilhado ainda..

  • Marcos Krock

    O que a Viúva Negra vai fazer com essa 9mm numa ameaça global ?

  • claudio yuge

    obrigado pedro, fico contente que o que escrevo possa ser prestigiado, acho o leitor da ideafixa exigente e é bom ter esse feedback.

  • claudio yuge

    hehe, pois é. mas, olha, até que ela se vira bem. mesmo sem a pistolinha. scarlett johansson vestindo couro já tá bom pra derrubar alguns ets

  • http://desenhaporra.wordpress.com/ Jussara Gonzo

    Putz, cara… você vai me chamar de preconceituosa, mas mesmo com todo mundo falando que o filme é otimo e tal eu NÃO consigo juntar vontade para assistir uma película de super-heróis. Já encheu a paciencia este genero para mim.

  • Dimi

    Sou fã e vou assistir de qualquer jeito. Parabéns pela resenha. Uma das melhores q eu li.

  • claudio yuge

    imagina, é uma questão de gosto, nem é preconceito. pra mim é uma linguagem que me diz muito e tenho uma memória afetiva com esses personagens. já vi boas peças de teatro, por exemplo, mas não gosto de maneira geral, não é uma linguagem que me agrada. ainda bem que todo mundo tem um gosto diferente né :)

  • Matches

    Batman do Nolan ainda foi um marco maior.

  • Matches

    Esse filme em particular não conseguiu me fazer pilhar, sai foto, sai trailer, acho mais do mesmo.

  • claudio yuge

    também gostei mas acho que são coisas diferentes né. são texturas diferentes e propostas, subtextos diferentes. e, né, aqui é um grupo. mas vá dar uma olhadinha nos vingadores, achei, acima de tudo, um filme bem-humorado pra família toda. o que não rola com the dark knight, que adoro. só não acho que foi marco assim grande, a não ser na cinematografia do próprio personagem; uma adaptação fiel de super-herói já havia sido feita. aqui o marco é um universo de quadrinhos orgânico no cinema. isso é inédito

  • http://be.net/xotoko Marcos Xotoko

    O filme é legal, mas não entendi as críticas que exaltaram o filme mais do que o devido. Também não entendi como ele está em um post aqui no blog, a não ser o fato de fazer parte da cultura de quadrinhos que está bem retratada no cinema, mas por ser um “super épico do cinema” acho um exagero absurdo. Trata-se de um típico blockbuster americano. O humor não é genial em nenhum ponto. As sacadinhas e diálogos são os mesmos de sempre e o roteiro não é original. A única cena que me deixou bem empolgado foi a de cooperação, logo no clímax da invasão alienígena, onde aparecem alguns recursos que, acredito eu, nunca foram retratados na história do cinema (a passagem de cenas de uma forma cooperativa entre os heróis), no mais é tudo “mais do mesmo”. O filme foi feliz por ter acertado o desafio de incorporar tantos personagens num mesmo longa sem perder a consistência, no mais peca pelos mesmos apelos de filmes como Transformers, Avatar, Homem-Aranha, etc…

  • http://flickr.com/rodrigo_cronwell Rodrigo Cronwell

    Não esperei muito do filme, fui na verdade já com um certo preconceito bobo de quem torceu um pouco o nariz para alguns dos filmes em separado, mas esperei pra ver, e como vi todos, não podia deixar de ver o último(?)…e a verdade é que não se quer que o filme acabe, muito bem resolvido, até em detalhes sem se perder, é assistir e se divertir…efeitos e carismas dos personagens, sem exageros, que agradam quem conhece ou não sobre o universo Marvel ou de quadrinhos…
    E uma a parte sobre o Ator Mark Ruffalo, que interpreta o Hulk, ele mandou muito bem, com o pouco que tinha, deu uma sombra que faltava sobre os outros Hulks, ele já causava a impressão certa sem mesmo ter se tornado o Monstro.
    Enfim assistam….me surpreendeu também.

  • claudio yuge

    marcos, não tô aqui pra convencer ninguém tá? mesmo que você não tenha entendido as críticas, eu entendi seu comentário, por isso achei apenas um pastiche de ideias rasas sem contexto, sem ofensa. é apenas minha opinião também, da mesma forma que acha que o que escrevo não deveria estar aqui. se não é útil pra você, é só jogar fora. de qualquer forma, aceito a opinião – é bom entender outras perspectivas (o início da resenha é dedicada a isso) – e agradeço a leitura. o mínimo que espero do leitor esperto que acessa a ideafixa é que não concorde com tudo. nem com todo o conteúdo do site.

  • http://www.flickr.com/hellvz hellvz

    Nossa! É Realmente Demais.

  • http://karengiraldi.carbonmade.com/ Karen Giraldi

    Concordo em gênero, número e grau. DIVERTIDÍSSIMO. Eu não lembro qual foi o último filme que conseguiu me fazer gargalhar. Nem as comédias cinematográficas tem esse efeito sobre mim. Até minha irmã, que nem curte filmes de super-heróis, adorou ter ido!

    E o Hulk, finalmente acertaram! =]

  • http://www.submundo-mamao.blogspot.com Vini

    Boa resenha, mas por favor… não utilize a frase: “heróis multicoloridos vestindo colantes, cueca por cima da calça”, isso denigre bastante o conceito dos Vingadores para as telas de cinema e pq o filme pode até ter alguns herois coloridos, mas nenhum vestindo colante e muito menos cueca por cima da calça. No mais, achei o filme ótimo, fiz uma resenha no meu blog explicando os pqs, mas não acho q ele seja um divisor de águas. Whedon conseguiu fazer um ótimo filme de super grupo que funciona, tem ação e é divertido, mas se for falar de filmes de heróis q revolucionaram o gênero no cinema, é bom lembrar de Batman Begins e TDK, certo? Abs!

  • claudio yuge

    a frase foi usada num sentido irônico vini, foi justamente pra provar pra quem acha isso que o filme conseguiu êxito, ok? é um divisor de águas porque antes disso não havia um universo de heróis no cinema — atores dos mesmos filmes-solo, uma história orgânica e crescente durante seis anos de filmes (que vai se prolongar a mais 8 anos, pelo menos). batman foi demais mas não revolucionou o gênero no cinema (o corvo já foi tratado de forma séria também, com tom adulto, ou sin city, ou vários outros), mas sim revolucionou a cinematografia do personagem. no mais, são minhas opiniões e as suas, acho que ambas são legais para quem quiser ler e saber mais, certo? valeu, abraço!

  • http://umolhar.com.br Vinicius Escano

    Estou babando pra ir ver logo no cinema. A expectativa é muito grande, espero que realmente seja tão bom quanto todo mundo está falando.

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