HQ e Cinema:: E o herói se torna o mito ao final de trilogia Cavaleiro das Trevas

27.07.2012 / Em cinema quadrinhos / Por Claudio Yuge

Olha, essa foi a resenha mais difícil de escrever até agora por aqui no IdeaFixa. Simplesmente porque as coisas mais legais que poderiam acontecer na conclusão da trilogia do Cavaleiro das Trevas, que chega aos cinemas brasileiros neste final de semana, bem... aconteceram. E seria muito xarope estragar surpresas. O que posso dizer, sem spoilers, claro, é o que você pode querer ler abaixo.

Bem, antes de começar, acredito que seja legal recapitular quem é Batman porque assim dá pra entender melhor a razão pela qual a interpretação sobre o personagem feita pelo diretor Christopher Nolan é tão legal. Todo mundo sabe que o Homem Morcego é o mais próximo de nós no panteão da DC Comics, que, um pouco diferente - nem tanto nos dias de hoje - da rival Marvel Comics, tem em seu leque os heróis mais parecidos com a mitologia clássica: os icônicos da empresa carregam mais características dos semideuses e o que nos identifica com o Cavaleiro das Trevas é fato dele ser "apenas" um humano levado ao limite, tanto físico quanto mental e emocional.

Batman é um detetive, lutador excepcional, um cara esperto com um senso de justiça que consegue passear pelos tons de cinza onde o Superman só vê preto e branco. E ele ama sua cidade, Gotham City. E, né, o cara tem a melhor galeria de vilões, o que o torna ainda mais admirável.

É com um desses vilões que começa esse Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Assim como no longa anterior, tudo começa com uma ação vertiginosa e de impacto, para apresentar o vilão da vez e mostrar que Bane não está ali pra brincadeira. Uma sequência aérea daquelas de deixar boquiaberto.

Em seguida somos apresentados ao cenário em que o filme é montado, algo que lembra um pouco O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Um já velho e cansado Bruce Wayne (Christian Bale) se isola do convívio social em sua mansão porque acredita não haver mais razão de existir um Batman após a Lei Harvey Dent, que colocou muita gente em cana. Além disso, a polícia e a sociedade não estão lá muito felizes com o Homem Morcego, culpado pela morte do cara.

Seu exílio só acaba quando uma ladra de habilidade incomum chama sua atenção. Vamos dar os créditos para Anne Hathaway, porque ela consegue ter aquela mistura de charme, ousadia e sensualidade que a personagem pede. Não deve em nada para as duas melhores Mulher-Gato da história de Batman nas telas, inclusive tem até o visual que lembra bastante a Julie Newman. Sem contar que dá gosto ver ela passeando por aí de Batpod...

Nolan é bastante fiel ao que propõe nos títulos da série e, portanto, para alguém levantar, precisa antes cair. Metade de suas 2h45 (que passaram rapidinho, diga-se de passagem) se dedica então à Queda do Morcego, que nos remete então à saga em que Batman teve a coluna quebrada por Bane, aqui não só ameaçador fisicamente como mentalmente.

Seria legal (re)ver os dois filmes anteriores para compreender melhor como Christopher Nolan já havia plantado sementes do que pretendia para a trilogia, especialmente com Batman Begins. Toda a história que ele começou naquele primeiro fecha neste, com direito a retorno de personagens.

Os personagens secundários aqui têm uma função maior que nos filmes anteriores e a profundidade dada a eles é que faz desse um longa mais complexo. Tanto Comissário Gordon, quanto a Mulher-Gato, Alfred (Michael Caine), Lucius Fox (Morgan Freeman), Bane (Tom Hardy), o jovem policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt) e até a insinuante Miranda Tate (Marion Cotillard).

Como visto em A Origem, Nolan consegue ser mais denso e ainda se conectar com a grande audiência porque faz cenas de ação em escala épica. Infelizmente não pude ver em uma sala IMAX, no entanto recomendo que vejam ali, já que dá pra notar que o filme foi feito pra esse tipo de exibição. Muitas falas de Bane, por exemplo, foram reprovadas nos testes preliminares e várias delas parecem ter sido dubladas, portanto há uma certa diferença no som quando ele diz algo, talvez isso seja menos perceptível em uma sala IMAX. Sem contar que o filme foi rodado assim, então tudo que já é estrondoso e visualmente deslumbrante deve ficar ainda melhor.

Bom, do que dá pra contar é que então O Cavaleiro das Trevas ressurge quando Bane está prestes a destruir completamente a cidade que Wayne tanto ama. E aí é que há interpretações interessantes de Nolan sobre o Bat-Universo e seus integrantes, a dinâmica que existe entre eles. Dá pra dizer que este é o filme da série mais parecido com as revistas, engraçado até o fato de que tudo o que o diretor não pode explicar no seu tom realista vai pra conta dos quadrinhos.

Nolan sabe montar um espetáculo - com direito a muita ação com o veículo aéreo denominado The Bat - e o que se segue então é cada personagem visitando sua zona limítrofe pra impedir o vilão e salvar o dia. Com plot twist e tudo mais.

Uma das coisas que mais gosto neste filme é ver Nolan enriquecendo esse universo, construindo personagens, ampliando sua história mesmo diante do fim. É quase paradoxal vê-lo fazendo isso para encerrar sua trilogia.

E é o que a faz desse Batman diferente de todos os outros do cinema. E, ao final da projeção a sensação é de dever cumprido e até de vontade de ver um filme a mais nessa história. Nolan fez o que não esperavam e transformou assim a trilogia do Homem Morcego uma das maiores e melhores adaptações de quadrinhos para o cinema.

E, de quebra, mostrou a jornada Cavaleiro das Trevas em sua transformação do herói para o mito. Demais hein.

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Comentários
  • http://liberland.blogspot.com Liber Paz

    Um dos grandes méritos do Nolan é justamente ressaltar o lado humano do Batman, com todas as suas fraquezas e limites. Ele fez isso melhor do que a grande maioria das histórias em quadrinhos do personagem. Ótima trilogia.

  • cyr

    quanto à dublagem, todo o som teve q ser refeito, já q o filme foi inteiramente filmado em imax, diferentemente do segundo, em q apenas algumas cenas o foram. e, bem, a câmera imax é um trambolho de trinta e tantos quilos e muito barulhenta, impossibilitando som direto.

  • http://cargocollective.com/sketchaday rodrigo spotorno

    Primeiro, a todos que ainda não viram, ABAIXEM AS EXPECTATIVAS PARA ESSE FILME E SPOILERS PRA CARAMBA A PARTIR DAQUI, OK???????

    Segundo: Discordo COMPLETAMENTE de cada palavra na sua crítica!! acho que vimos um filme diferente. O que eu vi tinha furos de roteiro do tamanho do Grand Canyon, coincidências bizarras, personagens que se teleportam da India para DENTRO DE UMA CIDADE SITIADA em menos de 6 horas… Sinceramente, fiquei MUITO decepcionado com o fechamento da trilogia. Gostaria de acreditar que esse foi o final que o estudio pediu, para não matar a galinha dos ovos de ouro.

    Nunca vi um filme tão desprovido de coragem no final igual esse batman do nolan. A cena final que ele nos deu de uma série de filmes que tinha tudo para ser fantástica simplesmente NEGOU tudo o que ele vinha falando. Que o homem pode morrer, mas a idéia sobrevive. Que o Batman é um símbolo, não um homem.

    LAMENTAVEL.

  • Igor Oliveira

    Concordo com o Rodrigo Spotorno. Não gostei nada do filme. Como fã do Nolan, fiquei decepcionado com tamanhos dialógos vazios, personagens descartáveis e furos inexplicáveis no roteiro. Uma pena. Acredito que o grande problema deste último Batman é que ele é um autêntico filme de super herói: bobo e sem nenhum pé na realidade O que os dois filmes anteriores, particularmente o segundo, definitivamente não eram.

  • Jardel

    Acho que os amigos devem ter ficado muito ligados em encontrar furos no filme e não prestara atenção em seu desenvolvimento em si!
    Francamente, qualquer um (exceto vocês dois) percebeu que o reator é o que temporizava a trama…e o fato de o mesmo estar na iminência das vias de fato, é que trouxeram a ideia de que o Wayne não gastou 6h pra chegar em Gothan…entretanto se vocês tivessem citado a falta de explicação do COMO o Wayne retornou a Gothan, uma vez que ela estava completamente inacessível, o que foi um furo mto pequeno frente à grandiosidade da trama, eu concordaria com vocês.
    Concordo com os personagens descartáveis…acho que podíamos ver muito mais da sagacidade do Tom Hardy na construção do vilão…mais ainda, aquele vilão tinha mto mais a oferecer!
    Em suma…de lamentável, em minha opinião, o filme não tem nada!!!

  • claudio yuge

    rodrigo, sem problemas discordar. concordo que vimos diferente porque o tudo o que não gostou do filme é o que nolan disse que ia fazer desde o primeiro (sobre o símbolo, ou mito, como coloquei no título). e é tudo o que os melhores autores fizeram com o personagem, desde a época do neil adams, passando por frank miller, mazzuchelli, grant morrison, loeb e tim sale, entre outros. talvez você apenas não goste do personagem, porque nolan concentrou em sua interpretação nas melhores coisas desses autores. como disse, o filme não é perfeito, nenhum é, o que nolan não resolve, bota na conta daquelas coisas fantasiosas (e também divertidas) dos quadrinhos. ele não negou nada do que disse, apenas confirmou. mas, enfim, é uma opinião minha, se não aceita apenas jogue fora, sem crise.

  • claudio yuge

    igor, como disse ao rodrigo, sem problemas, não vejo problemas em diferenças de opinião, pelo contrário, é salutar. bem sou fã do nolan e do batman também. os personagens são os mais próximos dos quadrinhos de toda a trilogia, eles inclusive têm maior participação. e, não se engane: com ou sem nolan, batman sempre será um super-herói. talvez apenas não goste de super-heróis, sem problema, tambem, ok?

  • claudio yuge

    pode ser, sei que foi rodado com mais câmeras imax mas não sabia que teve que ser todo refeito o som, vou ver no imax amanhã. valeu pela informação

  • claudio yuge

    ah, sim, hehe, po rodrigo, não quebra minhas pernas: fiz tanto esforço pra não revelar spoilers! hehe

  • claudio yuge
  • claudio yuge

    também achei liber, e esse filme acho que é mais para os fãs né, com direito a baboseiras que acontecem nas revistas mas que fazem parte. coisas do david goyer, acredito. mas tá ótimo, afinal, partindo do pressuposto que é uma história de um playboy que acorda às três e põe uma roupa pra espancar pobres… heheh

  • Daniel

    Rodrigo Spotorno tem toda razão. O roteiro é fraco e esburacado, diálogos sofríveis, personagens deslocados…Decepcionante, ainda mais quando você o compara aos dois filmes anteriores, a Inception e Grande Truque.
    Acho que a única coisa que gostei foi a “atuação/dublagem” do Tom Hardy para o Bane, achei diferente, com personalidade.
    O problema desse filme e de muitos blockbusters recentes é que eles gastam tanto com o marketing do filme, que todo mundo já vai pro cinema gostando, com a opinião formada. E esse deslumbre coletivo só atrapalha. Lembram do Superman Returns? O filme é uma lástima, mas na época todo mundo elogiou. Depois, com o passar do tempo, o marketing esfria, e o pessoal começa a perceber o que o filme realmente é.

  • Igor Oliveira

    Claro. É isso mesmo. Conheço algumas pessoas que também gostaram muito e respeito a opinião delas. Às vezes é a inversão – meu caso – ou superaçao das expectativas que tornam as opiniões tao distintas. E se fosse um filme qq a gente não estaria discorrendo sobre. Um abraço.

  • Igor Oliveira

    Caro Jardel, nao assisti ao filme procurando furos. Muito menos me sinto bem criticando o longa. É apenas uma opinião. Sou fã do Nolan, gosto muito do Batman, desse criado por ele, em especial, e admiro o cinema bem realizado. Por isso, minhas expectativas eram tão altas. E, justamente por isso, achei que o filme deixou, e muito, a desejar. Um abraço.

  • claudio yuge

    hehe, achei a o jeito de falar do hardy parecido com o yoda em certos momentos… enfim, eu detestei superman returns e concordo que talvez estejam vendendo the dark knight rises errado porque os trailers entregam muito. no meu caso, daniel, não se trata de deslumbre coletivo, só acho fácil encontrar erros em qualquer coisa que vejo, meu desafio é dizer porque as coisas legais deram certo. faço muito o exercício do olhar alheio e até compreendo o que não gostaram, mas acho que as qualidades estão muito acima dos defeitos. principalmente se tratando da conclusão de uma trilogia que, lembrem-se, deveria ter o coringa nesta parte final. bom, se estamos falando de quadrinhos e cinema, a discussão é válida: não se trata de mim ou de vocês, e sim do que interessa, que é o filme, certo?

  • rodrigo spotorno

    Aí que tá, Claudio, sou fã de cinema, MUITO fã, e sou muito fã de quadrinhos, tendo lido todos os classicos do Batman, alem de todos os outros super-heróis. Me diverti BASTANTE com vingadores, por exemplo, e achei que ele fez o que se propôs. O que não estou aguentando em todas as críticas ao Batman é essa pseudo-intelectualidade dos filmes sendo comentada quando na verdade o cara fez um filme pipoca, e ainda por cima cheio de furos. Eu vi gente falando que o Nolan queria fazer uma crítica ao capitalismo com aquelas cenas na bolsa. SÉRIO????? galera ta querendo enxergar demais, e ninguém esta analisando o filme pelo filme. Queria muito ter gostado do filme como você e não ter visto todos os defeitos que eu vi. Mas isso não muda que quanto mais penso no filme, mais problemas encontro. Com o Dark Knight isso nao aconteceu. Nem com O Grande Truque, nem com nenhum outro filme que tenha atingido seus objetivos. Mas o que vale é a discussão, cara!!!! E foi mal os spoilers!!!! ;-)

  • claudio yuge

    entendo rodrigo, realmente, odeio quando me vendem uma fast food tentando me convencer que aquilo é refeição completa. acredito na ser o caso de batman, no entanto vejo muitos fazerem o que disse, realmente superestimado. não é o caso aqui, vou até fazer um post no meu blog, depois que muitos virem o filme, somente com as homenagens que identifiquei. acho que a mudança de tom tem muito a ver com a mudança de planos de nolan depois da morte de ledger. de qualquer forma, tamos ae, o negócio aqui é participar e dar seu pitaco também! :)

  • https://twitter.com/#!/senhorfattori senhorfattori

    filme foda demais.

    melhor triologia do cinema, ponto.

  • Quéren

    Adorei esse filme, pra mim o melhor filme de super heróis de todos os tempos (olha q sou fã é do Superman e tenho todos os seus filmes e séries).
    Ele não é um filme intelectual, puxa vida cara é um filme de super herói…. com certeza cumpriu o que se propôs.
    e sim dos filmes de super herói pra mim é o mais profundo e complexo
    Os atores são os melhores… (Christian Bale é a alma desse filme, deixou o Batman incrível)
    Essa triologia, sinceramente,são os únicos filmes do Batman que consigo levar a sério.
    Em termos de filmes: Batman (por enquanto) é meu herói favorito
    Nas séries e quadrinhos continuo com minha devoção ao Superman

    Agora o que espero que seja bom e supere Batman, é o filme do Superman que foi produzido por Nolan que estréia ano que vem.

  • claudio yuge

    olha aí, foi o próprio christopher nolan quem disse: “Para mim, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é específica e definitivamente o final da história do Batman que eu queria contar. A natureza aberta do final é simplesmente uma ideia temática muito importante que queríamos colocar no filme, que é o símbolo do Batman. Ele pode ser qualquer um e isso era muito importante para nós. Nem todo fã do Batman vai necessariamente concordar com essa interpretação da filosofia do personagem, mas para mim tudo leva àquela cena entre Bruce Wayne e Alfred no jato particular em Batman Begins, quando a única forma que encontrei para tornar crível a caracterização de um cara se transformando no Batman é que era necessário um símbolo. Ele se viu como um catalisador das mudanças e, portanto, o processo seria temporário, talvez um plano de cinco anos que seria reforçado por encorajar os bons cidadãos de Gothan a tomar de volta sua cidade. Para mim, para que essa missão fosse realizada, ela precisava acabar, então esse é o final para mim e, como eu disse, todos os elementos do final aberto tem relação como o tema de que o Batman não era importante como um homem, ele era mais que isso. Ele é um símbolo e o símbolo vive além do homem”.