
IdeaFixa parou um pouquinho para conversar com a “mulher-maravilha” dessa leva de quadrinhos bizarros de putaria brasileira desenfreada: Cynthia B, responsável pela criação da Golden Shower – HQ que já está em sua segunda edição e teve colaborações de caras como Laerte, Guazelli e Adão. E não vou falar mais nada:
:: IDEAFIXA ENTREVISTA :: CYNTHIA B. ::

[IF] Conta primeiro a história de como começou a Golden Shower.
[CB] A Golden Shower, no início, seria um zine. Mas, depois que conheci o Allan Sieber e o Daniel Lafayette, mais pessoas começaram a se interessar e acabou que muita gente boa resolveu participar. Quando vi que a coisa tinha ultrapassado o nível de um pequeno zine, fui atrás de uma gráfica para fechar uma revista mais bacana. A coisa toda veio também por um gosto de ver as minhas coisas impressas. Blog parece que não conta, hehehe.

[IF] Você disse que seus pais patrocinaram a Golden Shower#1 (mas que nunca chegaram a vê-la). Até hoje eles ainda não viram a revista?
[CB] Não, eles acabaram vendo sim. Meu pai só falou: “Ahm, então não vou poder mostrar isso pros meus amigos, né?” hahaha. Já minha mãe ficou mais triste, e perguntou: “Se você tem talento, por quê vai ficar desenhando piru e perereca?“. Mas eu nem desenho isso muito… Na real, na segunda edição da Golden Shower, acho que só desenhei um pau imaginário.
[IF] Defina pau imaginário. rs
[CB] Hahaha! No caso, tem uma menina que imita uma foto que vi, em que uma mulher segura um pau que goza no canto da boca. Mas só fiz uma linha pontilhada de onde estaria o pau.

[IF] Ser uma mulher, comandar uma revista de putaria, lançar a revista, ir até o lançamento e falar: Oi, eu comando a revista de putaria. Como você encara isso?
[CB] Ah, bom, não chego bem dizendo que comando uma revista de putaria… é uma revista de quadrinhos. A maior parte dos quadrinhos underground sempre teve putaria, mas realmente a Golden Shower levantou essa bandeira de maneira mais forte. Na maior parte do tempo é tranquilo. De vez em quando aparece um pessoal mais… estranho, hehehe. Outro dia tava pensando: “vai que algum fã de quadrinhos (sim, pense estereótipo) resolve me estuprar porque eu estava “pedindo” quando publiquei uma revista assim? Eu ia ficar bem puta. Que medo!

[IF] Mas você já abordou esse tipo de tema na revista (estupro)? Como você faz uma curadoria que “segmente” perversões pesadas de perversões leves?
[CB] Eu, pessoalmente, não abordei. Tem uma HQ do Guido Imbroisi (ele é quem relmente consegue me chocar) em que um alemão explora uma brasileira pobre, dando dinheiro pra ela chupar o pau dele e tal. É bem doente, mas não é estupro. Andaram me contando histórias de estupro masculino – o que eu acho até mais pesado porque homem não espera ser estuprado. Deve ser mais chocante. Ser mulher é viver com a pergunta: “Será que esse cara tentaria me estuprar? Será que essa rua escura tem um estuprador?”. Penso mais em estupro do que em assassinato. Mas talvez eu veja muito Law and Order S.V.U… – A curadoria não vai pelo que é pesado. Tem uma parte da revista que juntei os MAIS pesados, as coisas mais gráficas e chocantes. Mas depois e antes, tem piadas. É difícil explicar… Eu imprimo todas as HQs em miniatura, espalho no chão e vou juntando por tema, por estética, pela sequência que vem na minha cabeça: tal HQ vai dar tal recado se vier depois dessa. Tem muitos critérios e ser pesado é um deles, mas não o mais importante.

[IF] Você já contemplou suas próprias experiências sexuais na revista?
[CB] Não muito. Acho que por estar editando a revista, acabo pegando mais leve. Muito desenho de pau e buceta, fiquei cansada até de ver. Acabei abordando mais a vergonha, ou a parte de relacionamentos… Droga! Não é que sou mulherzinha, afinal? hahaha! Mas eu quero fazer alguma coisa mais pesada. O problema é que pra desenhar uma boa putaria, acho que o desenho tem que ser mais preciso. Ou isso é só uma desculpa, enfim… o fato é que penso muito em putaria, então alguma hora isso vai ter que sair.

[IF] Como assim o desenho deve ser mais preciso? Você se refere a uma estética mais Serpieri para dar o tom de “boa putaria” ao qual se refere?
[CB] Não, eu penso em Crumb. Serpieri é realista meeeesmo. Acho até chato. Não curto tanto assim pornografia por si só. Crumb desenha líquidos voando pra todo lado, todo um exagero da coisa, fica mais… palatável? Me excita mais. Vê-se que é alguém que gosta muito do ato em si e não só das beeeelas cuuuurvas femininas. É expressivo. Mas o desenho é exato, Crumb é Crumb. Pronto, taí, a culpa é toda dele. Hehehe

[IF] E quanto à censura? Nunca passou por nenhuma situação dessas?
[CB] Outro dia estava falando sobre isso com alguém. A Melinda Gebbie foi presa e tudo por fazer uma revista erótica [Lost Girls]. Já eu, sou completamente ignorada pelas autoridades. Graças a Deus! Ou será que só não chegou nas mãos erradas ainda? Bom, se eu for excomungada vai ser até uma honra pra mim. Mas o mundo já tem tanta putaria solta rolando que duvido muito que minha revistinha vá mexer com os brios de alguém.

[IF] Definitivamente vc gosta de putaria. Quais as coisas (citáveis) mais loucas q vc já fez na cama?
[CB] Uh! Chegou a pergunta que eu temia! Não quero falar muito sobre isso, até pra não estragar surpresas, hehehe. Mas teve um cara que quis fazer um golden shower em mim. Engraçado é que ele era ucraniano e não tinha a menor ideia de que eu fazia uma revista com esse nome! Mas no fim das contas, não rolou.
[IF] Qual é a reação dos homens diante dessa sua (digamos) “boa resolução sexual”?
[CB] Afe, e eu tenho boa resolução sexual? Eu sou meio obcecada, não sei se isso é ser “bem-resolvida”. Eu talvez seja no sentido que separo melhor do que algumas mulheres amor e sexo. Mas eu conheço muita mulher assim também, acho que não sou nenhuma novidade, hehehe. Talvez já tenha assustado uns caras mais tímidos por falar alguma baixaria e tal. Talvez já tenha perdido relacionamentos por o cara me achar louca demais. Talvez eu tenha amigOs até demais por não ter problemas em falar disso. Ah, que sei eu de homens? Eles são um mistério pra mim! Só sei que gosto muuuuito deles.

[IF] Nessa sua obsessão quais as outras referências em putaria ilustrada que mais agradam?
[CB] Como disse, Crumb é o máximo. Mas essa pergunta é difícil responder. Às vezes, coisas estranhas me despertam. Coisas não tão bem desenhadas ou que não mostrem tanto. Na verdade, gosto de sexo, mas não sou tão fã de ver gente trepando por si só. Posso me excitar pela história, pelo visível tesão da pessoa no assunto, ou por simplesmente falar muito bem sobre a coisa. Dizem que mulheres, em geral, são “menos visuais”, precisam de historinha. Eu também. Então, referências que gosto, mas que se alguém for procurar pra bater uma punheta provavelmente vai se decepcionar, são: Julie Doucet – uma cartunista muito honesta, cuja história da primeira vez é tão real e bem contada que me deu tesão, apesar de ser em circunstâncias longe de “ideais”. Tem um quadro, em uma história da Mary Fleener, que uma mulher dá bêbada dentro de um carro, que acho incrível. E tem outras coisas… Mas acho que, se contar, vou revelar demais sobre minha cabeça doentia. E Allan Sieber, Schiavon, Angeli… todos bons cartunistas de putaria, mesmo sendo engraçados ao mesmo tempo.

[IF] Como funciona o sistema de colaboração para a Golden Shower e o que onde você planeja chegar?
[CB] Atualmente, chamo algumas pessoas e deixo aberto pra quem quiser me mandar alguma coisa. Peço para mandarem rascunhos, no caso de rejeitar, mas a maioria manda finalizado mesmo. Quem entra na revista, recebe 2 exemplares e pode comprar mais à preço de custo. O ideal seria, algum dia, poder PAGAR os colaboradores, mas por enquanto isso é um sonho. A meta é não ficar no vermelho.
[IF] Uma visão sua sobre o mercado dos quadrinhos no Brasil.
[CB] O mercado está crescendo bastante. Digo isso pois vejo a quantidade de pessoas envolvidas e interessadas, editoras que abriram espaço pra quadrinhos, o público nos festivais e na Internet… Acho que temos que tentar aumentar esse público cada vez mais, e melhorar a qualidade tanto dos quadrinhos quanto das edições dos quadrinhos. Se você conversa com gente mais velha, eles te dizem que, há 10 anos atrás, não existia NADA. Eram uns guerreiros lutando aqui e ali, mas sem um MOVIMENTO que nem tá rolando agora. Sou bem otimista.

[IF] Verificamos um comentario do Laerte sobre um raff feito pra segunda edição. Como você apresentou a revista para nomes grandes como ele?
[CB] Mandando um e-mail! Na primeira edição, já o tinha convidado e ele respondeu, muito educado (O Laerte, meu Deus!) que infelizmente não teria tempo. Na segunda edição, mandei outro e-mail. Ele respondeu de novo que talvez não tivesse tempo, mas dentro do primeiro prazo (que ninguém leva a sério) ele já tinha me mandado o lápis das 3 páginas dele. Quase morri! O Guazelli também conheci na Comicon e ele mesmo veio dizer que queria ter participado. Aproveitei e pedi logo a capa! hehehe Foi assim com a maioria, só por e-mail. O Adão é mentor do Lafa, acho que isso ajudou também. Enfim, o básico foi a cara-de-pau de mandar e-mail pedindo.

[IF] Arte e quadrinhos são algo em constante evolução e revolução. Putaria também?
[CB] Putaria é meio eterno, né? Acho que tudo que a gente faz hoje em dia alguém já fez lá na Roma antiga. Mas acho que a putaria está se disseminando mais. Moças de família “do it” também agora. E só se vive uma vez, não é? Por que você vai querer morrer sem ter experimentado tudo que tem direito? Se você não estiver ferindo ninguém, claro. Hoje em dia, conseguimos TREPAR sem a nóia machista de que os homens vão perder o respeito por nós e essa babaquice toda. Ainda existem machistas, mas dá pra pescar quem são, de longe. Saiba pra quem dar e dê feliz! Já disse o Catra: “putaria é quase amor”. É isso. Tem coisa melhor?
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Ahahahaa eu estava dizendo para a Cynthia que isso só rolou espontâneo assim pq aqui na IdeaFixa a gente pensa mto em putaria também. Acho que estamos todas no mesmo barco. rs