Fotomontagens e bizarrices

01.05.2012 / Em arte fotografia / Por Julia Bolliger

Não, ele não é escultor. É fotógrafo. Digo, é considerado fotógrafo e afirma ser fotógrafo. Mas digamos que ele vê perspectivas um pouco além do bidimensional na estática de suas imagens - ou apenas em fragmentos rasgados delas. Seu nome é Daniel Gordon e ele está apresentando uma seleção de seus trabalhos na mostra Out Of Focus: Photography - em cartaz na Saatchi Gallery (Reino Unido), até 22 de julho.

Um cara relativamente novo mas já figurinha carimbada dos maiores jornais e veículos de moda/arte do mundo, Daniel Gordon é nascido em Boston (EUA) e explodiu cedo para um estudante que formou-se em Yale apenas em 2009.

Muito se falou sobre suas Flying Pictures, uma série dedicada a fotografias de pessoas em estado de planagem nos céus, mas o trabalho de retratos em fotomontagem é filho recém-nascido da década em que estamos, registro bem atual, e que foi aparecer na mídia apenas em 2011.

Com tamanhos que variam de 0,5m a 1m de altura, suas fotomontagens são feitas a partir de fotos encontradas na Internet, revistas ou livros, cuja diferença de textura e luminosidade dos papéis conferem todo um charme para a construção das figuras criadas. Montadas, as personagens têm cenários. Situadas, elas têm sombras curiosas.

Após a montagem das fotos, um novo registro fotográfico da construção em cena torna o trabalho de Daniel Gordon cíclico. É que ele devolve ao papel fotográfico o peso e profundidade que apreendeu na realidade. O auge do contemporâneo: já que tudo está nas imagens e a elas deve retornar.

Claro que ele não é o cara que inventou a fotomontagem. Em um exemplo de relevância histórica, o austríaco Raoul Hausmann (1886-1971) já contribuiu muito para o movimento Dadaísta com o trabalho de fotomontagem, em uma época que a renovação do segmento estava pedindo socorro.

Isso foi durante a República de Weimar, anterior ao período nazista, quando a fotografia artística criava braços no fotojornalismo e na colagem, e tinha aquela verve dos anos 30 ligada à instabilidade de um sistema em crescimento vertiginoso, ao entusiasmo com a tecnologia e ao caos. Nada que a gente não esteja vivendo de novo, né? Mas cada coisa é uma coisa...

O trabalho do Daniel Gordon é bizarro, mas combina cores, combina mídias, combina visuais de décadas distintas, combina comunicação por todos os poros, combina muito bem com a salada de influências que os artistas estão vivendo agora, os novos empregos, mídias e as ENE possibilidades que a gente não sabe nem por onde começar...

Mas de um todo, como de costume, Daniel Gordon rasga um fragmento interessante no texto do curador William A Ewing: "A título de explicação, ele [Gordon] relata a história de uma mulher que pisa em um ninho de passarinhos bebês, ainda que isso tenha se tornado um monte de papelão rasgado. A sensação que ele tenta transmitir em sua obra é a que foi sentida nesse momento, quando as coisas, de repente, se tornam aquilo que você não esperava que fossem".

A exposição Out Of Focus: Photography está em cartaz até 22 de julho.

Bom feriado a todos :)
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