texto originalmente publicado no Filosofia do Design e no Design Simples | ilustrações de Carolina M. Marchese

Tanto no meio acadêmico quanto no meio profissional é bonito falar em abertura, liberdade de expressão, convivência de ideias, trabalho colaborativo, diálogo, etc. Como se não houvesse trincheiras ideológicas, panelinhas e preconceitos no Design. Eu, por exemplo, tenho preconceito contra quem acha que não tem preconceitos. E também contra aqueles que se acham “revolucionários” por serem homossexuais, vegetarianos, nerds e blasés. Tipo, it’s so last century… sorry.

Mas se não parecermos éticos (seja lá o que for ética), não pega bem. Temos que apoiar a sustentabilidade, fingir que somos contra a indústria cultural (mas sempre bem vestidos), falar inglês para poder falar de inovação e design thinking, esconder qualquer carência afetiva-financeira-intelectual e disfarçar a nossa falta de assunto. Contudo, você é especial porque tem a cabeça aberta. Ou seja, a mesma alienação de quem tem a cabeça fechada. A diferença é que você diz “tanto isto quanto aquilo” e o bitolado diz “ou isto ou aquilo” – ambos sem nada questionarem, ambos caindo na armadilha da qual pensam ter escapado.



Talvez seja por isso que ninguém questiona se a nossa profissão precisa ser de fato regulamentada. Afinal, o mercado malvado não valoriza os designers que, coitadinhos, são explorados e mal pagos. “Com a regulamentação, porém, seremos pessoas melhores, mais respeitadas e mais felizes!” (Ursinhos Carinhosos, séc. XV a.C.). Vou contar um segredo, mas não conte pra ninguém: a vida também é cruel para os profissionais regulamentados. Sempre haverá a possibilidade de você perder o emprego e sujeitar-se à informalidade, pouco importa seu diploma, sua cabeça aberta, sua ética ou sua liberdade de expressão.

Um artista não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de artes. Um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Mas um médico, um engenheiro e um advogado são diplomados. E parece que isso machuca a autoestima dos designers. Logo os designers, que superam qualquer preconceito, que são tão seguros de si mesmos, que não disputam atenção entre si e que conhecem muito bem sua própria história… Perdoem-me o sarcasmo, mas não vejo outra forma de introduzir este assunto.

Acho que deveríamos sim ter um espaço em concursos públicos. Mas também temos o direito de fazer design sem ter que passar pela universidade. Se o design é (ainda) uma atividade humana, o estudo acadêmico em design deveria ser uma escolha, não um requisito. Caso contrário, cria-se uma nova ortodoxia: o ensino se torna um mero treinamento profissional, a universidade, um passaporte obrigatório, o diploma, uma indulgência, e o design, um conjunto de regras e diretrizes. Note que essa ortodoxia já existe – não precisamos de uma nova.

O curioso é que nunca houve uma verdadeira disputa interna entre os designers, com uma revisão crítica de suas próprias ideias, doutrinas e teorias. Pode ser que, por um lado, os designers não se levam tão a sério quanto parecem levar a regulamentação. Por outro lado, ainda há um respeito ideológico que, em outras áreas, não mais existe. Esse respeito permite que os diferentes modos de pensar fazer design se desenvolvam sem serem encarados como contradições. O que me parece contraditório, todavia, é lutarmos por uma formalização federal que estabeleça o que é e o que não é design.

Para o filósofo Clement Rosset (2002, p. 32), “uma verdade incerta é também e necessariamente uma verdade irrefutável: a dúvida não podendo nada contra a dúvida”. Ou seja, somente aquilo que ainda não foi definido e formalizado é singular, não se deixa representar por nenhum substituto, não permite nenhum duplo e, portanto, é incontestável em si mesmo. Claro que, ao assumirmos esta incerteza no Design, corremos um permanente risco de angústia intolerável, impossibilitando qualquer tentativa de definição precisa e de sistematização lógica. Ao mesmo tempo, contudo, a existência do Design permanece viva.

Noutras palavras, acredito que a nossa relação com aquilo que fazemos é muito mais importante do que aquilo que fazemos em si. Essa relação só é possível quando questionamos e duvidamos de nós mesmos. A regulamentação do design não vai facilitar a relação que você tem com o design – e a grama do vizinho continuará sendo mais verde. A diferença é que, sem a regulamentação, ainda podemos escolher nossos vizinhos.



Referência Utilizada: ROSSET, C. O Princípio de Crueldade. Rio de Jaeiro: Rocco, 2002.

Leitura Complementar: Diga não a reserva de mercado, de Alexandre Van de Sande | Hipster Hitler, um retrato da redundância designer-hipster9000, o Banksy do Design | Look at this fucking hipsterfucking designers.

Filosofia do Designblogtwitterfacebookvimeo } | Vídeo acima: Generation OS13: The New Resistance Culture, Michael Oswald (2011).