texto originalmente publicado no Filosofia do Design e no Design Simples | ilustrações de Nicholas Pierre

Hoje falarei de um fator que parece ser desconsiderado na maioria dos métodos de Design: o bom gosto. Se você pensa que isso é algo muito relativo e que não pode ser reduzido a uma definição, perceba que tal afirmação é também reducionista – ter a mente aberta pode ser tão irredutível quanto ter a mente fechada (o reducionismo é a ambiguidade do relativismo, e vice-versa). De todo modo, mesmo quando tentamos fugir do dilema do bom gosto – quando achamos que a forma (harmonia, proporção, unidade) deve seguir ao máximo a função (usuário, contexto, necessidade) –, parece haver sempre um determinado senso estético implícito, em maior ou menor grau, naquilo que projetamos.

Pois se o Design ainda for uma atividade humana, em todo projeto haverá “lacunas abertas” onde nossas escolhas podem se basear simplesmente no argumento do mais bonito. Não por acaso, desde Platão muitos filósofos vêm debatendo se aquilo que consideramos “belo” é uma qualidade intrínseca ao objeto ou ao sujeito que assim o define. Kant, por exemplo, dizia que, embora os juízos estéticos não possam ser baseados na razão, há um fator universal que transcende ao gosto pessoal (do sujeito) e ao determinismo contextual (moda, cultura, tendências). David Hume acrescenta que o belo depende da capacidade do sujeito em dizer por que ele aprecia algo, distinguindo as qualidades factuais das sentimentais.



É seguindo esse raciocínio que Francis Hutcheson define a beleza como sendo a capacidade de um objeto em afetar seu observador. Em um caminho distinto, Schopenhauer acreditava que há uma espécie de vontade cósmica e impessoal que nos controla, sendo a beleza uma forma de nos distanciarmos de nós mesmos para nos aproximarmos dessa vontade metafísica. Em outras palavras, contemplar a beleza seria como tornar-se um espelho dela, sendo especialmente a música (a forma mais pura de contemplação para o filósofo alemão) “o exercício metafísico inconsciente, no qual a mente não sabe que está filosofando” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 36).

Fato é que qualquer teoria estética, principalmente quando defendida pelos críticos de arte, tanto pode aprimorar a nossa sensibilidade quanto gerar certo elitismo intelectual, remetendo-nos a uma alta cultura que se opõe à cultura popular. E isso significa bom gosto. Evidentemente, este conceito vem sendo questionado desde Molière, passando por Marquês de SadeOscar Wilde e até Banksy. Tais autores trazem um questionamento sobre valores morais como decênciaobscenidade, os quais, nas sociedades democráticas de hoje, são regulados por nós mesmos, de modo que a nossa suposta liberdade de expressão acaba sendo censurada por aquilo que chamamos de bom gosto.



Por isso algumas pessoas se sentem insultadas com a pornografia, violência, escatologia e qualquer outro ritual humano que esteja explícito a olhos sensíveis. De modo semelhante, muitos designers se sentem ofendidos frente a determinados gostos duvidosos, procurando expressar sua indignação através de outros gostos igualmente duvidosos. É neste ponto que eu procuro assumir uma postura ao mesmo tempo reducionista e relativista: o modo como vemos as coisas é o modo como vemos a nós mesmos. Embora isso pareça lugar comum, significa que contemplar ou repudiar determinado objeto é vivenciar indiretamente o que há de mais belo e mais repugnante em cada um de nós.

Não existe uma estética pura, intrínseca ao mundo, nem tampouco uma estética determinada conscientemente pelo indivíduo ou pelo contexto social. O que me parece fazer mais sentido é encarar o senso estético como uma misteriosa característica inconsciente do ser humano em se tornar um espelho do mundo, conforme metaforiza Von Franz (1997). Os reflexos estão na retórica, isto é, no modo como articulamos as ideias para persuadirmos, aos outros e a nós mesmos, a respeito da veracidade de uma experiência. Camila Garcia, em seu trabalho fotográfico Um elogio à solidão, consegue expressar muito bem tal reflexão:

“Não sei se a solidão que sinto ao andar por estas ruas está em mim ou nelas. Sei apenas que estas imagens em preto e branco denunciam timidamente a ausência de sonhos que vejo aqui. Tenho a impressão que neste lugar as pessoas não são felizes, ou eu é que jamais seria.”



Ironicamente, percebemos que toda experiência estética é, em última análise, puramente ficcional, seguindo a perspectiva de Hillman (2010). Na medida em que os reflexos contemplativos “movem-nos da ficção da realidade para a realidade da ficção” (op. cit., p. 78), é possível reconhecermos o ponto enigmático entre aquilo que esperamos do mundo e aquilo que o mundo espera de nós. Talvez esta perspectiva, onde o eu e o outro se encontram, possa preencher aquela lacuna aberta do mais bonito nos projetos de Design, revelando e ocultando a maneira como cada um de nós vivencia a própria vida.

Referências Utilizadas: HILLMAN, J. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. Trad. Gustavo Barcellos. Campinas, SP: Verus, 2010. | SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e como representação. Trad. Jair Barboza. São Paulo: Unesp, 2005. | VON FRANZ, M. L. Reflexos da Alma: Projeção e Recolhimento Interior na Psicologia de C. G. Jung. Cultrix: São Paulo, 1997.



Filosofia do Designblogtwitterfacebookvimeo } | o vídeo acima ilustra, literalmente, a reflexão estética à qual eu me refiro no texto.