Filosofia do Design | Design e Inovação

25.08.2011 / Em filosofia reflexão / Por Marcos Beccari

texto originalmente publicado no Filosofia do Design e no Design Simples | ilustrações de minha autoria

Muita gente tem pesquisado e publicado teorias/métodos/técnicas sobre Inovação. No entanto, como a grande maioria das coisas que eu li me pareceram entediantes e nada inovadoras, escrevi este ensaio falando sobre Heurística, os paradigmas de Kuhn e a intuição dialógica de Edgar Morin. Contudo, decidi ser inovador comigo mesmo e apaguei tudo o que escrevi. Porque eu também sou designer, já passei noites em claro esperando por uma inspiração divina, e não importa quanta teoria filosófica eu tenha estudado, esta busca pela inovação sempre foi uma dificuldade para mim.

As ideias em potencial me aparecem nas situações mais supérfluas – na novela das nove, na fila do banco, no bate papo com os amigos, etc. O difícil é conseguir anotar ou lembrar depois. Certa vez me disseram que a inovação surge com prática, experiência e disciplina. Pois bem, ainda não sei o que é isso (se é que um dia vou saber). O que eu desconfio é que não há nada de universalsistematizado que possa produzir algo inovador. A noção de regras e costumes antigos pode bloquear a atualidade essencial da novidade, atualidade esta que nos motiva a continuar inovando. Não significa que hábitos antigos devem ser ignorados, mas apenas que não devemos nos restringir a eles.

O processo criativo me parece ser uma conspiração em movimento que, embora sejamos nós quem a direciona, não acontece de maneira intencional. Deste modo, não acredito em fatores verificáveis que demonstrem a origem de uma ideia. Ao que tudo indica, o aspecto inovador de uma ideia não provém do indivíduo que tem a ideia, mas da possibilidade de essa ideia pertencer aos outros. Em outras palavras, inovação não é algo que será ou sempre foi inédito para alguém, mas aquilo que pode se tornar (e ainda não é) inédito para outrem. Explico.

O trabalho solo de John Frusciante, por exemplo, é algo que considero potencialmente inovador. Há uma beleza intrínseca, não apenas em sua (des)harmonia musical, mas especialmente na sutileza estética e em seu modo de se expressar. Note que, embora esta seja uma opinião pessoal, o estranhamento ocasionado pelas músicas de Frusciante é quase unânime. Isso, porém, não seria suficiente. Atrevo-me a dizer, então, que esta música representa, por exemplo, a chuva que cai após um dia intenso de trabalho. Claro que tal sensação é questionável, sobretudo por ser pessoal, mas ela pode se tornar inovadora na medida em que é compartilhada e repercutida entre as pessoas.

A inovação, deste modo, não está nesta ou naquela música em si. Mas se eu te mostrar uma música e, com ela, conseguir te passar uma ideia minha, a ponto de despertar um sentimento que só a você pertence, eu e você nos sentiremos mais vivos, como se estivéssemos compartilhando um segredo em comum. Esta experiência é precisamente o que eu considero inovação: algo parcialmente desconhecido, misterioso e fascinante, que pressupõe um envolvimento espontâneo, isto é, não passível de ser fabricado, apenas de ser descoberto de modo intersubjetivo (entre pessoas).

Por mais hermético que isso possa parecer, não consigo ver de outra forma. Aquilo que é inovador nos dá a liberdade de pensarmos e agirmos por conta própria, ainda que isso só aconteça através dos outros. Pois como eu já disse, penso que inovação é sinônimo de conspiração, no sentido de uma desconfiança constante sobre o “como poderia ser”. Assim, para proporcionar uma experiência com a qual as pessoas se identifiquem, é antes necessário que nós, designers, nos identifiquemos com as pessoas, desconfiando de que qualquer coisa pode se tornar uma nova experiência desde que vivenciada de forma conspiratória.

Evidentemente, esta conspiração não é tão simples. Um equívoco básico é cair na arrogância do acesso restrito e não reconhecer que a novidade só acontece com a contribuição alheia e o compartilhamento coletivo. Isso tem sido reforçado a cada dia com os debates que defendem a pirataria, o crowdsourcing, a cópia-oculta, etc. Outro erro é tentar identificar fatores elementares na inovação, reduzindo-a a receitas de bolo ou a métodos de autoajuda. Caímos neste erro sempre que tratamos o processo criativo de modo objetivo e controlável, como sendo um fenômeno restritamente físico-fisiológico ou lógico-dedutivo.

Portanto, creio que a inovação não é individual e nem universal, mas acima de tudo intersubjetiva. Além disso, é no mínimo perigoso limitá-la a um método aplicado (demonstrável e reproduzível), afinal, quando uma inovação é inteiramente desvendada e dissecada, ela deixa de ser propriamente inovadora. Em resumo, a inovação é talvez um vírus de Burroughs que não foi reconhecida como tal porque alcançou um estado de simbiose estável com o designer (seu hospedeiro). Deixando a conspiração de lado e parafraseando Salvador Dalí, o designer não é alguém inspirado, mas sim alguém capaz de inspirar os outros.

Filosofia do Designblogtwitterfacebookvimeo } | Vídeo acima: The Past Recedes (John Frusciante, 2007)

Comentários
  • http://www.kawek.com.br/apollomagno apollo magno

    Concordo com o que foi dito e aqui pensando, no meu ponto de vista (singelo e nada original) as respostas não acabam sendo um fim em sí mesmas (como foi dito). Mais importante que uma teoria que universalize ou encapsule coisas, ou uma saída ou novo método que “inove” o status quo de um artista (palavra pesada esta) acredito que a trajetória, o momento, o processo e o questionamento sejam mais dignos de nota. Como foi dito expendidamente acima, não existem formulas ou maneiras prontas. O novo, etimologicamente falando nada mais é que a negação do velho, ou em outras palavras a constante renovação da consciência, do abandono de clichês, da linha de conforto… entre a segurança do artista e o risco de quebrar seus próprios paradigmas ou rever seus velhos preconceitos já firmados, em frente ao a uma nova tentativa, descoberta ou experimento. A utópica jornada da inovação talves nunca seja alcançada realmente em sua plenitude e se alcançada talves dure apenas uns instantes, se transformando novamente em algo inalcançável lá na frente, mas sua função aparente nos serve apenas para nos colocar em movimento, nos fazer caminhar nem que seja em um caminho que mal enxergamos direito. No fim (se é que ele existe) talves reste apenas o processo e o meio, afinal os resultados acabam não sendo tão importantes se observarmos todo o longo processo de aprendizagem, experiência e reflexão que um trabalho “artístico” nos pode proporcionar. Limitando de tal maneira, todo aspecto imensurável e de fenômeno que encontramos na arte para algo que muito menor do que é realmente, na verdade.

  • http://www.barefootrobot.com Lisa

    Não sei se é certo falar que o processo de inovação é heurístico, porque se fosse um negócio que fosse constante e matemático nós conseguiríamos “imaginar” (calcular) o nosso futuro com mais precisão.
    No processo de Design é avaliado a atual necessidade do mercado, então o Design entra como super-herói para salvar o capitalismo e a humanidade com esse monte de tralha “compráveis” e “consumíveis”. (e isso para algumas pessoas dá um imenso prazer! veja só…)
    Também já pensei sobre o processo de criação ser uma conspiração – isso é válido pro design e principalmente pela (com todo o respeito) filha de meretriz da “maquiagem” que a publicidade e o design fazem juntos. E é intencional sim, se caso não existisse essa nossa prática aí chamada de “estudo de público-alvo”. É algo voltado totalmente ao mercado, inclusive aprendemos a pegar um eletrodoméstico terrível em questão de performance do motor, e fazer uma mascarazinha nova para ele para encarecer o produto – o produto é bonito esteticamente, voltado ao público-alvo para que então ele possa ser vendido por preço absurdo, para depois ele estragar sem pelo menos dois anos de consumo.
    A música pop é um bom exemplo de não-inovação e sim uma adaptação do velho – o que deu certo? o que vendeu mais?
    Receita de bolo.
    São raros os casos da inovação ser totalmente pura – ser nova, totalmente inédito – talvez o mais inédito e famoso é o rock, espontâneo (novamente, na maioria dos casos)
    A própria Apple já mostrou-se que tem lá suas referências e admirações (quase) secretas pela Braun.

    Ou não :)