
texto originalmente publicado no Filosofia do Design e no Design Simples | ilustrações de Matheus Mantovani
“Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.” [J. L. Borges em Ficções, 1944, p. 92]Qual a relação entre a criatividade e o tempo? Em primeiro lugar, o tempo é uma criação humana. E como grande parte das criações humanas, baseia-se no princípio da distinção: você distingue o que veio antes e o que veio depois. Note que essa distinção não é natural, mas sim uma gambiarra da sua mente para compreender o mundo. Contudo, este truque se desfaz quando você se questiona: o que antecede a distinção? Para respondermos isso, é necessário uma outra distinção.
Cientificamente, sabe-se que há basicamente dois pontos de vista para compreendermos os fenômenos. A concepção mecanicista, na qual o positivismo se apoia, enxerga todo e qualquer fenômeno como sendo resultado de uma causa, considerando a existência de determinados elementos imutáveis que alteram as relações entre si segundo determinadas leis fixas (como o tempo, por exemplo). Por outro lado, há a concepção finalista (ou energética, teleológica, quântica, etc.) que entende os fenômenos partindo do resultado para a causa, considerando uma espécie de “energia” que se mantém constante e que produz um estado de equilíbrio no seio das mutações que os fenômenos manifestam.

Embora este segundo ponto de vista também possa ser considerado truque ou gambiarra, parece-me mais sincero na medida em que sua preocupação não recai sobre as substâncias físicas em si, mas em suas relações. Não parte da ideia de que as substâncias se movimentam no espaço/tempo, mas da ideia de que o próprio movimento determina a potencialidade das coisas. Entretanto, somente uma terceira forma de concepção, simultaneamente mecanicista e finalista, seria capaz de responder o que antecede o princípio da distinção humana.
Trata-se da concepção unitária, tal como descrita por Jung e Neumann (apud JAFFÉ, 1995): o ainda-não-separado ou o novamente-unificado, uma realidade não condicionada aos limites da consciência humana. Não significa, porém, uma realidade externa ao ser humano – trata-se de uma perspectiva neoplatônica sobre a unidade entre alma e matéria. Mas como tal realidade poderia tornar-se cognoscível para nós? Para Jung, os alquimistas medievais conseguiam canalizar na matéria (pelo menos simbolicamente) a polarização e o desdobramento da psique (alma) que é, em si, unificada. É como se as coisas reais e aquelas que imaginamos fossem dois lado de uma moeda, isto é, formam uma mesma realidade.
Mas como afinal o designer pode ser criativo sem o princípio da distinção? Ora, atuando na lógica unitária; não de modo direto, mas indiretamente através dos símbolos. Um símbolo expressa uma realidade impessoal e atemporal que recebeu do designer uma forma pessoal e temporal. Em outras palavras, é quando o eterno e universal funde-se com o individual e único. Cada situação ou briefing aponta para um caminho de ação, como uma semente de orquídea que não pode germinar outra flor que não seja orquídea. Quando o designer reconhece esta “fase embrionária”, torna-se parcialmente autor do seu próprio entorno.

Isso implica menosprezar a relação meios/fins, voltados a uma meta, frente ao condicionamento imanente do “potencial da situação”. O designer não tem um papel ativo ou passivo nisso, apenas procura se ajustar à situação para mantê-la viva e em movimento, atuando como um “agente de reação” que, tal qual um alquimista, somente articula uma experiência simbólica. Devemos ressaltar, na concepção aqui proposta, a carência de liberdade do indivíduo criador: qualquer tipo de distinção é anulado, inclusive a noção de tempo, frente a um a priori inconsciente que, no processo de criação, se impõe à consciência do designer. No entanto, essa imposição é apenas o contrário da liberdade individual que, por sua vez, acontece por compensação.
Para que a articulação simbólica prossiga, em sua imanência, o indivíduo criador deve ser atuante: o símbolo chega quadrado mas permanece redondo. Isto é, torna-se compreensível mas, no fundo, se mantém incompreensível. Deste modo, um articulador simbólico é aquele que sabe lidar com esse efeito compensador, de modo que a falta de liberdade resulte em sua autoria e autenticidade. Significa inscrever sua individualidade na trajetória natural das coisas para que, submisso à imanência delas, o resultado pretendido ocorra de forma autônoma. A eficácia do resultado, pois, se manifesta quando ele ainda não se realizou. Assim, o ato criativo deve parecer ausente para ser exercido.
Aquilo que no fundo a criatividade exige não é a criação em si, mas a recepção do desconhecido através da superação das distinções. Os opostos se unem em um sentido categórico que, à priori, não faz sentido. Logo, a criatividade aponta mais para uma fenomenologia da ambiguidade do que para uma pragmática do querer. Por fim, acredito que todo ser humano é potencialmente criativo. Contudo, para exercer essa criatividade é necessário superar (ou mesmo suportar) a tensão dos antagonismos entre a alma e o mundo. Afinal, não vejo diferenças significativas, por exemplo, entre o perecível e o eterno – este é potencialmente aquele e vice-versa, ou seja, ambos são indícios de um mesmo fato.

“Tudo que ocorre psiquicamente dentro do consciente talvez se explique de modo causal, mas a criatividade, cujas raízes estão no mundo imensurável do inconsciente, se fechará eternamente ao conhecimento humano.” [C. G. Jung em O Espírito na Arte e na Ciência, Ed. Vozes, 1991, p. 100]Referência Utilizada: JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado. São Paulo: Cultrix, 1995.
Filosofia do Design { blog | twitter | facebook | vimeo } | post inspirado no filme “Mr. Nobody” (2009)
Tweet







Acho que a questão geral desse texto não tem como estrutura o panorama da arte na contemporaneidade, e sim na relação entre o tempo e a criatividade.