
Caetano Veloso está escondido nos tons pastéis de seus cadernos de rabiscos, nos sambas de aquarela que se camuflam pelo corpo dos personagens. Egon Schiele está nos braços, pernas, genitálias e prostrações atormentadas dos elementos das obras: um misto de dor e emoção que busca metaforizar suas ideias. Por fim, atento para a composição dos elementos, a maneira como o artista conduz sua obra de um lado ao outro da tela, em forma de poema visual. Não à toa, o artista brasiliense recebe o nome do maior poeta latino de todos os tempos: Virgílio.


Virgílio Neto pertence à nata dos jovens artistas gráficos brasileiros que abusam de influências múltiplas para chegar a soluções criativas de alto grau estético. Ele foi do design comercial às exposições, que lhe renderam recentemente o Prêmio EDP nas Artes, do Instituto Tomie Ohtake. Ainda assim, segue encontrando seus suspiros de inspiração na obra autoral, o cárcere de riqueza (voyeurista e aflita) onde nascem os sentimentos.


Pesquisas nos últimos 4 anos de trabalho sobre técnicas de desenho, afloraram seu discurso. Talvez não mais amarrado ao erotismo figurativo, o artista afirma ter interpolado influências que vão do "malandro" ao "erudito", mas mantendo seu viés voyeurista.


Creio que o romancista peruano Mario Vargas Llosa defenderia o trabalho de Virgílio quando afirmou: "O erotismo exige um certo padrão estético, um nível de criatividade elevado, uma certa cultura. Faz do amor um fim em si mesmo, não um meio para prolongar a espécie. (...) E justifica o prazer em termos que poderíamos chamar não somente hedonistas, mas também artísticos". Por isso penso que, sobretudo, há muita identidade naquele devaneio pastel, e isso fica mais à mercê do sentir, do que do entender...


Retomo contato com Virgílio Neto nesta semana, quando o artista prepara sua primeira exposição solo em seu ateliê, o Espaço Laje, em Brasília. A ser inaugurada em 24 de novembro, a exposição ocorre junto ao lançamento de seu livro "Talvez o Mundo Não Seja Pequeno", pela Bolha Editora. Quem conhece o rapaz, sabe o peso que tem uma frase dessas. Quem não conhece, pode chegar bem próximo ao contexto por meio da imaginação.



De qualquer forma, ainda lembro da primeira vez que o entrevistei para uma matéria, em 2009, quando se revelava impossível rotulá-lo, encaixotá-lo em formalismos ou discursos pré-determinados. Ia lhe dizendo que tinha algumas questões para debatermos, quando fui interrompida por uma questão fora dos padrões, uma questão que não era minha:
[Ele] - Sim... Julia, e o que tem na sua janela?
[Eu] - Como assim na minha janela?
[Ele] - É! O que você vê pela sua janela?
[Eu] - Ah... vejo a rua, algumas casas, uns postes, carros passando...
[Ele] - Qual casa você gosta mais?
[Eu] - Bem... gosto de uma amarela de esquina.
[Ele] - Ok.
[Eu] - É...Mas e você, Virgílio? Já que gosta tanto de janelas, o que vê pela sua janela?
[Ele] - A sua janela.

Já nesse dia nosso contato tomava outras proporções, um pouco além daquela simples e direta que sugere o Jornalismo. Virgílio nunca colaborou com minhas entrevistas. Porque ele colabora com o tom inverso das coisas, nos faz vê-lo por meio dos nossos medos, questionamentos e emoções... Isso se torna claro à medida que - em meio a balaclavas, erotismo, cães e poesia - fui descobrir que sua "Eneida" tinha a forma de rabiscos.












