Call Parade 2012 | Vida longa aos orelhões

17.05.2012 / Em arte / Por Julia Bolliger

São Paulo, 1980: uma cena quase preocupante tomava conta da cidade em relação aos mobiliários públicos. Atos de vandalismo antecipavam já por ali a morte de uma peça-ícone do design brasileiro, projetada apenas 10 anos antes pela arquiteta Chu Ming Silveira e implementada, inicialmente, na Rua Sete de Abril. Como se pode ver no vídeo abaixo, ninguém suspeitaria que o orelhão, um símbolo nacional, chegaria meio capenga e cheio de mini-propagandas de serviços variados (do carreto ao sexo) aos prodigiosos anos 90, onde fatalmente seria substituído pela febre dos telefones celulares...

A mesma São Paulo, 2012: e o orelhão não morreu. Do pouco que se observa dessas peças nas ruas de São Paulo, uma mistura visual de quatro gerações seguidas conta essa história. Falam sobre os arrombos por causa das fichas engolidas até o uso do cartão, sobre as cúpulas em forma de concha alaranjada até ficar verde, sobre as intervenções de todos os que ainda passam por ali diariamente, seja para ler um adesivo colado, esconder-se da chuva ou para falar com um amor distante... Nada mais claro de que ainda há vida ali.

Em respeito a isso, assim como uma forma de embelezar a cidade-cinza, nasce a Call Parade - uma exposição outdoor de orelhões espalhados por toda a cidade de São Paulo, que tem início no próximo domingo, 20 de maio.

A iniciativa é uma forma super contemporânea que a Telefônica|Vivo descobriu de aproximar as pessoas novamente dos aparelhos públicos e, de quebra, propagar o nome de 100 artistas brasileiros, como já vinha fazendo a parceira TopTrends, desde 1998, com a Cow Parade.

>>>OS ORELHEIROS

Foram 357 participantes que enviaram seus desenhos, dos quais 90 finalistas foram selecionados por Binho Ribeiro, Alcindo Moreira Filho, Diego Zaragoza e Djan Chu Silveira - que encabeçam o comitê curatorial ao lado das diretoras das empresas parceiras. Os 10 faltantes, foram convidados especiais, como o artista urbano Eduardo Kobra, muralista responsável por trabalhos na 23 de Maio e na Av.Paulista - onde também se localizará seu orelhão.

O processo das pinturas fez com que diversos artistas pensassem em novos conceitos para atingir os olhos de um público tão grande. "Eu acho que um evento como esse serve para nós, artistas, passarmos alguma mensagem, nem que seja estética. Para morar numa cidade como São Paulo, grande, precisamos de no mínimo "respeito". Respeito aos outros, aos prédios, aos orelhões, as árvores, as obras públicas, ao transporte coletivo. Através da minha linguagem totalmente colorida e orgânica, contrastando com a Avenida Paulista cinza (onde meu orelhão irá ficar), tentei passar essa ideia" - conta Cako Martin, um dos finalistas que participa com a peça Ame & Respeite.

E quando se fala em artista, atento principalmente ao artista urbano, que usa a cidade como plataforma para sua obra. Na opinião de Ricardo Tatoo, que vai ter sua peça instalada na rua Clélia - em frente ao Sesc Pompéia - a oportunidade casa perfeitamente com o trabalho.

"É aquela velha piada: não se pode vencê-los, junte-se a eles. Pois já que o orelhão é alvo de tantos ataques, depredações, é melhor que ele seja amigo dos artistas urbanos do que inimigo, certo? Esse orelhão me fez pensar que a gente tem ali mais um suporte que o artista urbano pode aproveitar". Intitulado Zumbi dos Palmares, o orelhão de Ricardo Tatoo dá continuidade ao trabalho do artista em cultuar os grandes heróis brasileiros.

Paulo OMeira, artista plástico que integra o grupo de Mônica Nador no JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube), acredita na Call Parade como uma celebração do antigo: "Essa exposição celebra o que se tornou vintage, ganhou uma nova percepção para usuários, é convidativo. A cidade ganha essa intervenção artística que o público poderá tocar, sentir e até brincar. Um objeto que andava passando desapercebido agora é notável, mas deveria ser instalado em diversas localidades e não só no eixo central". O artista terá sua Cabeça em Trânsito exposta na Av. Paulista, 203, onde estarão localizados nada menos do que outros 41 orelhões da exposição.

No que se refere à peça, OMeira, que é arquiteto em formação, vê o mobiliário como algo passível de mudanças: "Os telefones eram um mobiliário urbano útil, vejo pessoas ainda usufruindo em pequena escala. Mas a nova (a minha) geração se adaptou muito bem ao celular. Até as classes sociais menos favorecidas se preocupam mais em ter celulares do que cuidar da saúde... Penso que o papel do orelhão poderia ser repensado, receber novas propostas a serem adaptadas, como um possível carregador de bateria, um suporte para computadores. Seria uma forma de mantê-lo vivo dentro de um cenário em que a comunicação acessível permanece primordial".

Outros nomes como o o artista plástico Claudio Tozzi e a ilustradora de moda Fernanda Guedes estão na lista desse ano, que também conta com uma homenagem singular à Chu Ming Silveira, feita pela artista plástica Cris Campana.

Conforme opina o participante Vitor Rolim, ao que tudo indica, essa sim permanece a verdadeira relíquia do Call Parade: "A Chu Ming criou isso sem copiar ninguém. O Brasil viveu os últimos 50 anos copiando todas as tendências do design do mundo, e ela não fez isso. Funcionalmente, o orelhão morreu sim. É um instrumento de design que não vai voltar a ter a utilidade que tinha, não existe mais aquelas filas de meio-dia na frente do orelhão... Mas essa exposição é uma homenagem a essa peça: um instrumento originalmente brasileiro". A Call Parade fica em exposição até o dia 26 de junho.

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Comentários
  • http://www.ideafixa.com Janara

    E na terceira foto eh a Leticce, nossa conhecida de longa data e que tb esta figurando na Selecao Fiat 500. You go, girl!

  • http://amalgamacultural.net JP de Oliveira

    Estasia à brasileira – Vamos ressignificar as ruas e os muros desse lugar!

  • http://leticce.blogspot.com Leticce

    É muita emoção <3

  • janjão

    “Foram 357 participantes que enviaram seus desenhos (mais do que o dobro das inscrições em relação ao ano passado…” como pode ser o dobro de inscrições do evento anterior se é a primeira exposição?

  • http://www.juliabolliger.com Julia Bolliger

    Janjão, minha culpa! Me confundi com uma Cow Parade que já envio o link. Mas está corrigido, obrigada.

  • Gabriel Mosca

    Tem um orelhão desse na frente do meu trampo! Muito bonito

  • http://quim.com.br Quim Alcantara – artista plástico

    Vi vários por aí. Estão demais!

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