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03/08/2009


Em um único dia, um indivíduo cruza as lentes de pelo menos 400 (sim, 400!) câmeras de segurança em Londres. No mesmo ambiente onde se encontram estas câmeras, cartazes e néons publicitários são o “sinal visível” de um mundo repleto de escolhas. Todos somos livres para escolher que refrigerante tomar ou jeans que vestimos, correto?  Mas a publicidade, na verdade, faz somente uma proposta. Ela propõe que nós nos transformemos, ou a nossas vidas, ao comprar alguma coisa a mais.

“Modos de ver” do John Berger é uma reunião de 7 ensaios organizados a partir da série “Ways of Seeing” feita pela BBC na década de 70. O último ensaio, que é o ponto de partida deste post, fala justamente sobre a publicidade e o quanto ela vive da herança cultural da pintura clássica.

A publicidade é o manifesto da vida moderna, afirmavam os futuristas. Mas a vida moderna também está repleta de ansiedade, insegurança e frustração. Todo o dia somos desafiados a criar imagens que minimizem esses sentimentos. Mas também somos bombardeados por imagens. O caminho que a publicidade oferece “equilibra” uma jornada de horas de trabalhos sem sentido ou qualquer sentimento que a vida está escorrendo pelas mãos.

Todo mundo quer ser feliz.

Na última semana, um livro de auto-ajuda pousou nas minhas mãos. Tirando o fato de que “ser feliz” para a autora (e provavelmente para quem gastou dinheiro no livro) passava por ter um marido incrível, um emprego “dos sonhos” e uma casa formidável, um dos capítulos falava sobre a inveja como o motor para irmos atrás de algo.Berger também fala sobre a inveja: a que o indivíduo sente de si mesmo pelo que poderia ser. A inveja por parte dos outros, felicidade julgada por fora, por outros – eis a noção de glamour.

Ter glamour é ser feliz e ser invejado justifica amar a si mesmo.

Mas antes que eu encerre o post e me atire do 14º andar, o que fica mesmo – depois de ler e tomar este soco na cara – é que se a publicidade é a linguagem do nosso tempo, a “filosofia publicitária” interpreta o mundo como um cenário para o cumprimento de uma promessa de boa vida, afirma Berger.

Ele faz o paralelo com a pintura clássica. Nos museus, as pinturas a óleo são rodeadas por molduras douradas. Mas o que está em volta da publicidade somos nós, as notícias da revista semanal. O nosso ambiente está rodeado de imagens que nos mostram o que poderíamos ter, o que poderíamos ser. O poder de gastar dinheiro é o poder de viver. Mas enquanto não compramos o passaporte pra este mundo, somos excluídos deste sonho.

30/06/2009


Iraque, 2005. Soldados americanos eram impossibilitados de usar seus cartões de crédito em área de alto-risco para acessar sites pornôs. Mas um site na Flórida passou a oferecer livre acesso a soldados, contanto que provassem serviço militar. Nas primeiras fotos, nada demais, apenas a comprovação que estavam em serviço: soldados em barracas e tanques de guerra. Mas a novidade se espalha e soldados passam a enviar imagens grotescas para o dono do site, Christopher Wilson, que passa a publicá-las em um novo site chamado nowthatsfuckedup.com (saiu do ar).

Uma foto mostra não só uma, mas várias cabeças boiando em uma poça de sangue, enquanto outra mostra uma criança com uma polpa de sangue (como uma fruta amassada) no lugar do seu rosto. Curiosidade, medo, repulsa… e um grande vazio. Quando você se vê de frente para essas imagens, não se sabe se você está chocada e paralizada com tamanho horror ou se não está reagindo com força suficiente. Mas pensando que vi estas imagens no conforto da minha casa, a pergunta é: que direito temos de invadir o sofrimento dessas pessoas?

Alemanha, 1945. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o fotógrafo Richard Petersen iniciou um ambicioso registro na cidade que já foi considerada a “Florença do Elba”. Os ataques a Dresden são usualmente comparados ao lançamento da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki: seja pelo nível de destruição, seja pelo número de vítimas. Estima-se que pelo menos 30.000 pessoas tenham morrido entre os dias 13 e 14 de fevereiro de 1945.

A primeira e mais comum resposta para justificar a divulgação de tais imagens é nos despir de ilusões e fazer com que vejamos a verdade nua e crua. Mas a imagem da violência nos traz um dilema: precisamos ver, queremos ver e a tecnologia faz com que ver seja mais fácil que antes, mas sairá algo de positivo depois?

Imagens de violência podem, às vezes, mudar a opinião pública. As imagens que fazem parte do “imaginário coletivo” sobre a Guerra do Vietnã, por exemplo, podem ter contribuído para seu fim. O poster da Art Worker’s Coalition (1970) com a foto de Ron Haeberle sobre o massacre de My Lai, permanece como uma das mais confrontantes imagens na história do poster de protesto.

16/06/2009


Jan Bons nasceu em 1918 e, como indica numa pesquisa ao oráculo, continua vivo. Conheci seu trabalho depois que vi o livro+dvd sobre o trabalho deste designer holandês famoso por seus posteres desenhados com imagens e tipografia manual.

O trabalho de Bons situa-se longe do que usualmente associamos com o que é desenhado nos Países Baixos: tipos sem serifa e caixa-baixa, grids e tudo mais. Ao invés disso, letras de papel rasgado ou enrolado… nada de computador.

Um fato curioso sobre a vida de Bons é que durante a ocupação alemã, enquanto trabalhava com o impressor Frans Duwaer forjando documentos para o movimento de resistência. Duwaer foi condenado e executado. O filho mais velho de Bons diz no filme que depois disso, ele julgaria as pessoas por um simples critério: “se estivéssemos em guerra agora, confiaria nesta pessoa e pediria para me oferecer abrigo em sua casa?”

Para quem puder/quiser comprar o livro+dvd, não perca a chance!

12/06/2009


Neville Brody no OFFF2009 foi só mais um exemplo de alguém cujo trabalho, assim quanto tudo que é verdadeiro, não necessita auto-explicação. Admiro os designers que têm consciência do tempo projetam e a sua afirmação de que “pela primeira vez na história vivemos num lugar onde o futuro se parece pior que o passado”, só dá mais lucidez para o discurso de Brody.

Aliás, consciência do tempo e da própria vida foi o que mais me chamou atenção nas coisas que vi no evento. Seja consciência da própria história como tem a Paula Scher, ou do processo como PES que documenta de forma primorosa os seus projetos (mesmo quando isso envolve um simples spaghetti), ou Stefan Sagmeister que busca ser feliz com design e por isso o faz tão sincero e verdadeiro.

Depois do OFFF, eu e uma mochila circularam por mais algumas semanas para atracar na School of Life, em Londres. A príncipio pode parecer que é a “dose” de Vila Madalena e da hipponguice da Inglaterra (mentira!), mas se é mesmo verdade que as pessoas querem ouvir ideias que façam a diferença, a School of Life atende bem a demanda.

Tive a sorte de ouvir um sermão com Luke Johnson, colunista do Financial Times e presidente do Channel 4. Ele acredita que se arriscou mais na vida que muitos de nós… e ao que parece ele não pretende parar em tempos de incerteza econômica. Mas Luke lembra que tempos difíceis podem relevar todo o tipo de oportunidade. 

Até que ponto o perigo de uma recessão faz com que percamos a coragem para fazer a mudança que queremos ver no mundo? Não há dúvida que as coisas não andam muito bem, mas como ele bem disse, não quer dizer que devemos parar de assumir riscos. Mas o que mais me assustou – depois do OFFF, do sermão e de tudo mais – não é nem a impossibilidade de concretizar planos, mas a infinidade de possibilidades a disposição de uma geração que parece que precisa da cláusula “ser aceito” no contrato. (continua num próximo post)

19/04/2009


Luba Lukova nasceu na Bulgária, mora em Nova York e é autora de uma das peças de design gráfico que tocou o meu coração. Visualmente engajados e poderosos, os posteres de Lukova mostram como o uso de metáforas visuais, justaposição de símbolos e simplicidade de linhas e cores são capazes de formar uma combinação explosiva.

(Nota biográfica: ela foi o meu primeiro objeto de “tietagem” no design gráfico, que incluiu uma breve troca de e-mails… nos idos de 1998!)

Numa época em que falta tudo menos ruído, admirar-se é cada vez mais raro. Com gente encarando design gráfico como um hobby, a preocupação em tocar o coração de alguém é esmagada pela vontade de impressionar a qualquer custo (como se design gráfico fosse uma espécie de xamanismo ou sei lá…). 

Uma vez li uma frase no primeiro livro do Sagmeister (“Made you look”, Booth-Clibborn, 2001) que é óbvia mas vale repetir sempre: “When our conscience is so wishy-washy, so is our design”. Aliás foi o próprio que usa a expressão “tocado pelo design” e é autor de uma outra peça que me impressiona bastante.

Alguns filmes mexem com você, livros mudam a sua visão sobre a vida e seu humor já foi influenciado por uma série de músicas… mas ser tocado pelo design envolve fatalmente um curto espaço de tempo e isso só torna a tarefa mais difícil.

Em duas semanas começa o OFFF – International Festival for the Post-Digital Creation Culture, em Oeiras, Portugal. Entre os palestrantes estão o próprio Stefan, Neville Brody, Paula Scher, Joshua Davis, PES e um montão de gente. Espero ver muita coisa feita com o coração (soa meigo, mas não!), verdadeira e sincera.

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