
Em um único dia, um indivíduo cruza as lentes de pelo menos 400 (sim, 400!) câmeras de segurança em Londres. No mesmo ambiente onde se encontram estas câmeras, cartazes e néons publicitários são o “sinal visível” de um mundo repleto de escolhas. Todos somos livres para escolher que refrigerante tomar ou jeans que vestimos, correto? Mas a publicidade, na verdade, faz somente uma proposta. Ela propõe que nós nos transformemos, ou a nossas vidas, ao comprar alguma coisa a mais.
“Modos de ver” do John Berger é uma reunião de 7 ensaios organizados a partir da série “Ways of Seeing” feita pela BBC na década de 70. O último ensaio, que é o ponto de partida deste post, fala justamente sobre a publicidade e o quanto ela vive da herança cultural da pintura clássica.
A publicidade é o manifesto da vida moderna, afirmavam os futuristas. Mas a vida moderna também está repleta de ansiedade, insegurança e frustração. Todo o dia somos desafiados a criar imagens que minimizem esses sentimentos. Mas também somos bombardeados por imagens. O caminho que a publicidade oferece “equilibra” uma jornada de horas de trabalhos sem sentido ou qualquer sentimento que a vida está escorrendo pelas mãos.
Todo mundo quer ser feliz.
Na última semana, um livro de auto-ajuda pousou nas minhas mãos. Tirando o fato de que “ser feliz” para a autora (e provavelmente para quem gastou dinheiro no livro) passava por ter um marido incrível, um emprego “dos sonhos” e uma casa formidável, um dos capítulos falava sobre a inveja como o motor para irmos atrás de algo.Berger também fala sobre a inveja: a que o indivíduo sente de si mesmo pelo que poderia ser. A inveja por parte dos outros, felicidade julgada por fora, por outros – eis a noção de glamour.
Ter glamour é ser feliz e ser invejado justifica amar a si mesmo.
Mas antes que eu encerre o post e me atire do 14º andar, o que fica mesmo – depois de ler e tomar este soco na cara – é que se a publicidade é a linguagem do nosso tempo, a “filosofia publicitária” interpreta o mundo como um cenário para o cumprimento de uma promessa de boa vida, afirma Berger.
Ele faz o paralelo com a pintura clássica. Nos museus, as pinturas a óleo são rodeadas por molduras douradas. Mas o que está em volta da publicidade somos nós, as notícias da revista semanal. O nosso ambiente está rodeado de imagens que nos mostram o que poderíamos ter, o que poderíamos ser. O poder de gastar dinheiro é o poder de viver. Mas enquanto não compramos o passaporte pra este mundo, somos excluídos deste sonho.










