Em agosto de 2007 a pintura Primeira Missa no Brasil foi exposta no MON, em Curitiba, após passar por uma restauração completa. Estavam também em exposição alguns documentos da época (1860-62), que foram importantes para o processo de criação da obra.
O mais legal de todos mostrava uma carta do sr. Joaquim L. de Barros Cabral, catedrático da Academia Imperial de Belas Artes, endereçada ao seu amigo João Maximiano Mafra, professor e secretário da Academia. Mafra deveria repassar as observações de Cabral ao jovem aluno Victor, que curtia um estágio de arte em Paris e havia sido encarregado de executar a obra.
Fui lá ver o quadro e fotografei o manuscrito porque eu precisava ter em casa esse exemplo de primórdios da direção de arte no Brasil, e o negócio é feio.
A carta começa com o tal do Cabral muito malandro dizendo que procurou o Mafra várias vezes e tal, mas não o encontrou (estilo “mas eu te mandei um e-mail”). Outros trechos da carta são facilmente reconhecíveis na vida dos designers e publicitários atuais.
Dá pra imaginar o Victor Meirelles no estúdio partindo seus pincéis ao meio:
Victor, tá lindo! Mas tem que refazer.
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copia
Amigo e Sr. Mafra
Em conçequencia do seu aviso vocal, tenho conparecido na Acádemia por divérças vezes porem com tál infelicidade que inda não me pude reunir com os meos collegas da secção de Pintura, talves por fálta de serem elles avizádos official=mente para um dia e óra marcada,
Vi o esboço do Sr Victor de Meireles, e o acho bom porem como tenho de imitir o mêo parecer, porisso o faço agóra.
Em primeiro lugar acho que o altar onde se selebra a Missa deve ser cobérto com panos de navio ou barraca para impedir que esteija assim esposto o Calix, pos é costume em campo aberto celebrar-se missa em uma tenda, cuja frente seja aberta nos espectadores
Em, segundo, a cor dos indios é muito vermelha e nada se açemelha a raça do Norte, a qual tem uma cor mais amarelada escura,
Em terceiro, deve aver só um indio com cocár porque é este o sinagl do Cheffe da tribu ou Caçique,
Em quarto, deve sacrificár o primeiro plano em escuro para tirar a igualdade de lus que iziste e esta dár melhor a Vegetação Brasilleira bem como mostrar no fundo um poco de már com alguns galeoens fundiados para melhór dár a idéa do açunpto
São estas as minhas fracas obçervaçoens que tenho a imitir, o que faço fasço para que leve ao conhecimento do Artista
Aqui fico ao seo dispor Como
Amigo obrigado
Cabral
Passa fora!
nota do copista
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Victor Meirelles recebeu até material de referência, que foi uma pintura de Horace Vernet, “A Primeira Missa em Kabylie”. A diferença interessante é que Vernet esteve no local, e não só foi o retratista como também montou o altar e o restante da cenografia. Meirelles foi criticado por ter feito uma interpretação imaginativa demais daquilo que realmente aconteceu em 1500. Já discutiram muito sobre a semelhança entre as duas obras, mas o livro “Como Estudar a Arte Brasileira do Século XIX?”, de Jorge Coli, tem uma análise com mais contexto. O pintor brasileiro (e catarinense) só fez o que mandava o briefing de Porto-Alegre: seguir fielmente o texto do Caminha.
Resumo da história: o diretor de arte não ia com a cara do dupla do Victor e sobrou pro Mafra, como está explicado aqui.
Mafra, resolve essa pra mim!
Ilustração: Victor Meirelles
Direção de arte: Joaquim L. de Barros Cabral
Criação: Manuel de Araújo Porto-Alegre e João Maximiano Mafra
Redação: Pero Vaz de Caminha
E esse foi meu primeiro post. Obrigado, Donas da Panela, é uma diversão estar aqui e eu gosto mais de batata e gosto mais da IdeaFixa também!
-Renato