
Estamos numa época pesada de censura da arte erótica na Internet, razão pela qual creio ser tão válido um post que mostre que a arte erótica está na História da humanidade há milênios, e que há de se observar tudo que a antecede para creditar a ela o devido valor. Formais ou não, taradões ou não, os verdadeiros gênios da arte são assim: percebem a si e aos outros, sem medo de que a referência ao outro ofusque seus próprios talentos. Por isso os artistas têm musas, e as musas têm ídolos, e os ídolos de muitos prestam homenagens àqueles que ninguém conhece: pois as tendências artísticas estão em espiral, entrelaçando pessoas e construindo histórias. E a gente sabe que essa é a boa da arte: seja ela erótica ou não.
Hoje resolvo utilizar como exemplo a série Sensualitars do Milo Manara. Diferente de uma simples série erótica - o que, em se tratando de Manara, não tem nada de simples -, o conjunto de desenhos ali exposto dá uma verdadeira aula de História da Arte Erótica por meio de imagens. É que o italiano reuniu sua visão sobre cada artista que admirava (Rafael, Boticcelli, Munch, Picasso, Dali) ao observar uma musa retratada de sua autoria. É claro que essas leituras dão um toque bem mais sexy às moças que estavam bem longe de serem beldades incorrigíveis... Mas o que não faz uma dosezinha de amor e um lápis na mão do Manara?
Ficou difícil de entender? Então veja:

::UMA MUSA BIZANTINA::
Extraído das paredes da Basílica de San Vitale, em Ravena (Itália), o mosaico da imperatriz Teodora data do séc. IV, e exibe uma mulher pálida, de cabelos negros, olhos grandes e perturbadores. Manara despiu a moça de seus trajes finos, construindo sobre ela uma Teodora voluptuosa, mas manteve as joias e sua coroa de pedras preciosas.

::O PÃO DA MINHA PRIMA::
Apelidada de La Fornarina (a Padeira), a obra do pintor italiano Rafael data do século XIV e é um dos ícones do Renascimento. Reza a lenda que a musa ali retratada teria sido o grande amor da vida de Rafael: a padeira Margherita Luti. Na obra original, a moça tenta encobrir os seios - ou supostamente um tumor no seio esquerdo - olhando fixamente para aquele que seria seu amante em Roma. Na leitura de Milo Manara, a Fornarina surge nua chocando o núcleo eclesiástico e inspirando seu retratista Rafael, sentado à direita da obra de pincel na mão.

::GOLDEN SHOWER::
Danae (1907), a "Bela Adormecida" de Gustav Klimt é uma das peças simbolistas mais preciosas feitas pelo pintor austríaco. É uma cena clássica: por meio das coxas grossas da moça, uma chuva de ouro passa rasante. Aí alguns perguntam: chuva de ouro simboliza o amor divino ou o erotismo? Para o Manara é o erotismo, sem dúvidas.

::A ORIGEM DO MUNDO::
A censura facebookiana não gosta nada dessa obra-prima do Courbet - tanto que já andou deixando a Janara Lopes e um monte de gente de castigo por causa dela. De qualquer forma, L'Origine du monde (1866) é uma peça realista francesa de inegável valor histórico, que mostra sem rodeios a forma primitiva com que chegamos a esse mundo. Na leitura do Manara, não vai ter xilique no Facebook: uma imagem de Courbet dirigindo seu lânguido olhar à genitália feminina que causaria tanto tumulto depois de séculos. A maldade está nos olhos...

::PÉS NA ÁGUA::
Hendricjke Stoffels foi a segunda esposa de Rembrandt van Rijn - que em meados de 1640 já era viúvo de Saskia, e costumava observar a segunda esposa banhar-se no rio. Os episódios de banhos e lava-pés na vida de Rembrandt renderam inspiração para diversas telas, como The woman in the bath (1654). Em Sensualitars, Hendricjke surge numa versão mais jovem e até mesmo singela, mas ainda mantém o ar de mulher que teve seus desejos saciados enquanto observa tranquilamente suas partes íntimas refletidas na água.

::O BAIXINHO EM MONTMATRE::
Nessa ilustração o Manara vai longe: coloca o baixinho Toulouse Lautrec sendo seduzido por uma das vedetes alouradas do Moulin Rouge que ele gostava tanto de pintar. Entre as dezenas de quadros que o francês pintou até sua morte precoce em 1901, reza a lenda que a modelo Carmen Gaudi foi uma das principais figuras às quais ele recorria para posar, tal qual se pode ver em Quadrille at the Moulin Rouge (1892).

::AGORA SIM, O PERVERTIDO::
Em termos de musas, Klimt e seu pupilo, Egon Schiele, não tem do que reclamar. Outro fortíssimo representante do expressionismo austríaco - de viés principalmente erótico - Schiele foi apresentado a diversas modelos de Klimt no começo de sua carreira. Entre elas, destaca-se Wally Neuzil, a ruivinha que está presente em belos ensaios posturais do artista. Para Manara ela aparece deitada, na mesma cena de prostração que se pode identificar na obra Zwei Mädchen (1911).

::A PENITENTE MADALENA::
Annuccia: assim era chamada a prostituta Anna Bianchini, que teria conhecido o mestre Caravaggio em meados de 1590, quando este foi morar em Roma. Estudiosos acreditam que Annuccia está presente em quatro obras de Caravaggio: Penitente Madalena (1597), O Descanso na Fuga para o Egito (1597), Marta e Maria Madalena (1598) e A Morte da Virgem (1604). As associações feitas utilizando o rosto da jovem no papel de Maria Madalena davam-se ao fato de que Caravaggio era um pintor de temas religiosos e, naquela época, era sabido que Annuccia e as outras mulheres com as quais se relacionava sofriam duras penas por policiais e homens violentos. Manara resgata um dos episódios em que Annuccia talvez houvesse sofrido abusos e expunha semblante triste e perdido.

::ANGÚSTIA E PUBERDADE::
Uma morena nua, envergonhada de seu próprio sexo, sentada contra sua própria e monstruosa sombra é o retrato da Puberdade (1895) aos olhos de Edvard Munch. Ao lado d'O Grito (1893) e da Vampira (Love and Pain - 1894), é uma das obras mais famosas e atormentadoras do pintor norueguês. A visão de Manara recebe o nome de Anguish (Angústia) esclarecendo que o tormento mental que se passa na cabeça da garota foi sussurrado pelos pensamentos do próprio Munch.

::UM PRESENTE DE CASAMENTO PARA SANDRO BOTICELLI::
Il Decameron", novela trágica e erótica de 100 contos escrita por Giovanni Boccaccio em meados de 1380, foi o tema de Sandro Botticelli na criação da série The Story of Nastagio degli Onesti (1483). As três peças de Botticelli correspondem ao nono conto do Decameron, sobre um homem honesto que encontra uma mulher nua sendo atacada por cães e homens na floresta. Dizem que Botticelli fez as peças como presente de casamento para o afilhado de Lorenzo, o Magnífico. Retornando o presente, Manara tira as dentadas do cão na bela retaguarda da donzela - que mais uma vez leva os traços de Simonetta Cattaneo de Vespucci, a "Vênus" do pintor e musa absoluta de Florença - e cria um novo ambiente para essa bunda: a santa paz da natureza.

::O TOURO, O PICASSO E A MODELO::
Sem fazer referência a nenhuma obra específica, o desenho de Manara intitulado O Touro e a Modelo apresenta o pintor e escultor espanhol Pablo Picasso em seu auge, ao lado de uma retratação livre de seu suposto "erotismo recortado".
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