A resistência a globalização

19.07.2009 / Em arte / Por IdeaFixa

"Frente ao poder homogeinizador da cultura global, o artista cuida de inserir, nas próprias vias onde esta reclama sua hegemonia, aquilo que pertence ao seu território doméstico e ao campo do afeto."
Moacir dos Anjos na edição #03 da Santa art magazine.

No final de 2005, estava em Portugal, longe do Brasil há algum tempo, fui ao cinema assistir O Jardineiro Fiel de Fernando Meireles. Não é o filme em si que me interessa aqui. Me interessa o fato que desde o primeiro minuto, ainda que com uma produção gringa, eu sabia que o filme tinha sido dirigido por um brasileiro. Eu mapeava claramente as influências culturais, o modo de ver e sentir porque conhecia aqueles sinais. Saltava a carência de me identificar com a minha cultura original, saber de onde eu vinha e que não me perdi nem fui massacrada por tantas influências externas.

Para não nos confundir em um mundo global onde a nossa identidade pode ser a cópia vil de algum filme estrangeiro ou de algum rockstar, surge a necessidade quase vital de identificar-se com as raízes, de saber quem somos pelas influências culturais que recebemos por nascer naquela terra e pertencer àquela nação. Saber o que as pessoas e os costumes trouxeram para a nossa obra.

Mas nesse momento surge a questão: Qual é a cultura brasileira? Qual é a cultura latinoamericana? Eu, como filha de imigrantes, devo me identificar com a cultura latinoamerica pre-colombina e a atual ou com a cultura européia?

A seguir uma pequena seleção de imagens de artistas que ao meu ver são extremamente conectados a sua cultura local.

Os Gêmeos
Os Gêmeos

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Os Gêmeos

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Os Gêmeos

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Claudio Edinger

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Claudio Edinger

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Aloisio Magalhães

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Carlos Colombino

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Marcos Lopez

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Buggy

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Buggy e Gustavo Gusmão / Buggy e Matheus Barbosa

*agradecimentos a Deia Kulpas que me ajudou na seleção de imagens

  • http://www.ideafixa.com Alicia Ayala


    Amazonas no Rio Negro, Fernando Chamarelli

  • http://milolhos.blogspot.com Diniz

    As perguntas colocadas vão na direção da dicotomia, do “Ou/ou”: ou minhas raízes ou a cultura alheia. Acredito que essa seja uma abordagem simplista, uma vez que as culturas se ramificam nos mais diversos pontos, sem que um mapeamento do que pertence ao meu nacionalismo atávico (bandeiras de futebol? Enfeites de festa junina? Imagens de favelas?) e o que aparenta ser da cultura do Outro esteja claramente dado. É o tipo de raciocínio dos fomentadores de cultura da terra brasílica, que se baseiam intuitivamente em um falido (porque limitado) “estilo nacional” para financiar. Imaginam que certos gêneros, certas formas de pensar/projetar, por não incluírem algum elemento “tropical”, estão fora dos parâmetros autoritários da “cultura brasileira”. Observando o eterno patrulhamento ideológico de nuestros hermanos (vide o que sofreu um escritor como Jorge Luis Borges), vejo que o quadro deve ser idêntico.

    O que parece mais claro é que as inquietações de qualquer arte são universais, não locais. O “sabor local” costuma gerar bons cartões postais (de fácil comercialização, com o selo “exótico” estampado) e péssimas obras de arte. As culturas, em um sentido bem universal, estão de braços abertos a todos, e quem souber construir melhor pode, sem ter nada com a “identidade” de um determinado povo, criar uma obra definitiva sobre cultura aparentemente alienígena. O cinema provou isso muitas vezes: um dos melhores filmes sobre o México foi feito por um vanguardista russo (Eisenstein); outro russo criou registro ferozmente cubano sobre Cuba (Protazonov); um italiano nos anos 1960 (Pasolini) captou a alma dramática da Grécia antiga e do oriente próximo; um mexicano contemporâneo (Guillermo del Toro) recriou o mundo opressivo e trágico da Guerra Civil Espanhola e do franquismo

    A melhor literatura brasileira sempre foi universal sem deixar de mergulhar na nossa realidade (de Guimarães Rosa a Rubem Fonseca). O melhor cinema, idem. E a melhor arte, creio, também. Portanto, não há como “resistir” à globalização, nem esta última precisa ser sinônimo de uniformização ou padronização. Pode ser que um bom artista/escritor/cineasta brasileiro crie um grande e brilhante painel, a obra síntese da Moldávia. E ela será interessante não por ser brasileira ou moldava, mas por ser de boa qualidade (portanto, de certa forma, universal).

  • http://www.ideafixa.com Alicia Ayala

    Oi Diniz,
    As perguntas dicotomicas foram teasers para um próximo post onde quero falar justamente que somos frutos do caos e não da dicotomia. :)
    Inclusive os paradigmas obra de arte/espectador, parede/pessoa não servem para nós, serviam para um mundo dicotomico cristiano onde existia céu/inferno, bem/mal.
    Enfim, você já previu a problemática e aviso você quando publicar o próximo post porque ainda estou terminando uma tradução.
    E quanto a temática universal nas artes, eu estou com você e não abro mão.
    Meu questionamento, entretanto, foi no meio de tantas referências culturais, de tanta mistura, o que é que fica com você e o que é que você trouxe culturalmente na bagagem para não ser uma cópia ambulante.
    Qual é o caos que você leva dentro de si por ser brasileiro?

  • http://www.garn.com.br Diego Miguel

    Êxcelente tópico, ambos estão apontando questões que me inquietam a algum tempo.

    É perceptível as dificuldades que ainda encontramos em conviver com o caos, de compreender que dentro dessa sociedade, está cada vez mais díficil distinguir o antagonismo de alguns séculos atrás, porém, percebo-me em processo transitório que por certo (creio eu) gera crises, tratando-se de arte um belissima crise de representação, onde aparentemente tudo é válido, fato que isso não é um fenômeno recente, a destruição das referências que vinham norteando todas as gerações anteriores estão acotecendo a cada (poderia tranquilamente dizer) minuto, e me parece natural causar tanto estranhamento, medo, aflição, até ao que compete a identidade local.

    Me recordo muito dessas discussões da universidade sobre a identidade brasileira/latino americana/…, mas hoje o que posso perceber é a falta de necessidade de encontra-lá, (formas, geometrias, cores e linguagens locais).

    Por fim, enquanto aguardo esse novo post sobre o caos, acho eu, irá criar questões mais profundas sobre o tema, estarei racionalizando (apesar de cada dia acreditar menos no nacionalismo e me sentir parte da aldeia global) sobre essa ultima frase “Qual é o caos que você leva dentro de si por ser brasileiro/argentino/colombiano/mexicano/africano/…?” pois apesar de ser parte de um universo ainda desconhecido como um todo, minhas raizes culturais, dogmas, ética, linguajar, semântica visual, entre outras milhões de peças que constituem meu individualismo, partem de um território geograficamente especifico, do qual não vejo como ignorar.

  • http://innsoma.blogspot.com/ Fábio Zanetti

    Ótima postagem. Melhor ainda é entrar aqui nos comentários e continuar a ler um bom debate.

    Aproveitando o termo “aldeia global” do Diego, acredito que a facilidade de contato com outras culturas e diferentes formas de expressão colabora para esse caos, assim como a confluência cultural que ocorre atualmente, que, nesse primeiro momento, pode nos dar a sensação de perda ou falta de identidade, mas que pode também nos transferir para uma realidade mais rica e que só poderemos avaliar depois que o furacão passar.

    Abraço pessoal.

  • Ana Paula Luz

    Meintrometo nese site aqui de vez em quando pra xeretar o que deai COOL está acontendo no mundo do design ou as arte aplicada. Bem, gostei do seu tópico Alicia porqu refltexatamente acrise de identidde que a art e os artists estão vivendo hoje.
    Esta ploriferação de imagens e contextos pode ser explicada pela nova vedete d moment n estudo das artes, a chamada Cultura Visual. Onde as imaens (ou queiram hamar Arte) nãsão univesais por excelência e sim cada vez mais contextualiadas, em tempo e espaço.c
    Aquestão é o que eu tiro disso, qual é a minha resposta frente uma imagem, o que eu tiro dela… é falar desde mim e das minhas influências, ou naquilo que constituiu a minha mirada.
    Acho que a gente não leva na mochila, como quem leva as havaianas, nossa brasilidade, afinal, aqui onde estamos, nossas maiores referências são a arte européia, branca e masculina.

  • Ana Paula Luz

    o meu teclado está horrível e vi agora como o meu post ficou baguela, cheio de falhas. sorry…

  • http://www.flickr.com/rafaelvilela Rafael Vilela

    Muito interessante a reflexão, tenho pensado coisas similares há algum tempo, principalmente na questão do design nacional ser tão colonizado frente as influencias externas.

    Um documentário muito interessante nessa questão da cultura brasileira é o “Povo Brasileiro” de Darcy Ribeiro (baseado no livro homonio). É dividido em pequenos capitulos, entre eles as matizes originárias: Indigena, Lusa e Negra. Extremamente enriquecedor!

    Parabéns pela iniciativa.
    Abraços,
    Rafael Vilela