Há tanta informação audiovisual no mundo contemporâneo que o fator “estar antenado” já não funciona e não torna as pessoas mais atualizadas.
Entro na sala e a primeira coisa que vejo antes de perceber E. atrás da escrivaninha é um estonteante tênis preenchido com arabescos psicodélicos por toda sua área (inclusive no solado): presente de aniversário feito e enviado por uma amiga. E. olha desolado para o objeto, braços jogados sobre as coxas, a cabeça um pouco baixada, de costas para um giclê de “Quadrado branco sobre fundo”, de Malevich, constrastando com seu indefectível costume preto com camiseta igualmente escura. “Senta aí”, ele diz, sem muito ânimo.
Sento-me. E. (que não quis ter seu nome identificado) é um talentoso jovem estilista, mas em franca e admitida decadência. De certa forma isso não é ruim, afinal ele é jovem e a decadência a que me refiro é a constatação de que sua preferência pela mínima informação e máxima estruturação; defendida na arte pelo próprio Malevich no início do século 20 e, nos anos 1990, ditando moda através de mestres como Helmut Lang e Rei Kawakubo; é a fênix de seu trabalho para que ele ressurja com outra configuração. De certa forma, repito, isso não é ruim.
“Estou cansado dos excessos, mas os excessos me venceram”, constata fitando tristemente o all-star “exclusivo” sobre a mesa. E eu entendo o que E. quer dizer. Há tanta informação audiovisual no mundo contemporâneo que o fator “estar antenado” já não funciona e não torna as pessoas mais atualizadas. O design e as mídias de massa são duas das grandes responsáveis por esta overdose que, se não é má, tampouco parece ter sido benéfica para as novas gerações e um fardo pesado para as gerações intermediárias (os que nasceram na era pré-celular, como ele e eu, por exemplo) porque há muito a ser diregido e pouco estômago para fazê-lo. O que acontece é um sobrepeso de carga informativa sufocante e, paradoxalmente, entediante.
Os “excessos” a que E. se refere tem efeito de supernova sobre nossas mentes. De tanto brilho e poder de atração, a imagem consome a si mesmo e a tudo que está ao seu redor causando um grande e absoluto vazio que parece não ter fundo. O deserto, vazio a ser preenchido, que se referia a arte de Malevich, é o mesmo a que nos leva toda a gama de cores, formas, montagens, extensões, texturas, aparências, ilusões, configurações, reciclagens, reutilizações que nos torna seres oprimidos e subjugados pela imagem que, de tão presente, acaba se tornando parte imperceptível da paisagem. Um big bang ao contrário.
Não é de hoje que pensadores, artistas e afins estão preocupados com os excessos. Baudelaire, quando do advento da fotografia, já se demonstrava preocupado com os efeitos da reprodução sobre a cultura dali para frente. Guy Baudrillard já temia o hiperconsumo, hoje realidade inexorável, desde meados do século 20. “Mas a falta de contemplação nos corroi”, completa E. “Veja minhas peças, ninguém mais quer contemplá-las. Não importa mais a minha mão sobre o corte destas roupas, o que importa é o consumo imediato e o tal do “valor agregado”, este monstro indefinido que tomou conta do produto”.
Ele segura, enfim, o tênis e passeia os olhos sobre ele. Não é mais um tênis mas, sim,um objeto de herética adoração descartável. “Não é incapacidade ou inoperância de minha parte não conseguir absorver isso tudo. Cansei de me sentir culpado. Realmente não há HD em ninguém para tanto. Nossos jovens estão crescendo e se espremendo dentro de Ipads enquanto falta espaço para contemplar. Eu estou cansado”, desabafa.
E. é um grande empreendedor. Não vai deixar que seus negócios se abatam por “incapacidade ou inoperância” e dividiu os negócios com outro sócio ainda mais jovem e “antenado”. Foi a solução que encontrou para si. E para os excessos, qual é a solução, pergunto. Ele me olha complacentemente e guarda o tênis na gaveta da escrivaninha como resposta. Atrás dele, a reprodução de Malevich não se moveu um milímetro sequer.
Publicado originalmente em Pérolas aos Porcos.









