oi, eu sou a bia e vou colocar uma série de contos bobos aqui, pra vocês lerem quando não quiserem trabalhar. sabem que o ministério do trabalho e o mistério do planeta recomendam 10 minutos de pausa a cada 40 minutos de trabalho né? dá pra matar um. os desenhos são sempre colaborativos, se alguém quiser ilustrar o próximo será muito bem vindo! beijo no coração (haha).
joaquim | joaquim tinha a pelagem lisa, albina e cheia de carrapichos grudadinhos. apesar de sua altivez, era um bicho triste por dentro. mas sua tristeza era pequena, perto da tristeza que os homens daquele lugar sentiam.
aquele lugar |aquele lugar era geograficamente enorme. eram doze campos de graminha rala e queimada, cheios de mosquitos que ficavam entrando nas nossas orelhas. as poucas árvores já tinham cargos determinados por sua hierarquia ancestral. as menores forneciam flores e nasciam para ser belas. as médias cediam seus troncos para amarrilho de animais como joaquim. as grandes forneciam frutos e sombra além de funcionarem como delimitantes das pistas de pouso para teco-teco. de vez em quando, via-se uma casinha. eram casinhas prosaicas, de madeira, que viviam incendiando. ninguém sabe ao certo se eram combustões espontâneas devido ao calor do trópico e a fragilidade da estrutura ou se era intervenção de deus, e ele queria que assim fosse.
joaquim, amarrado na árvore de tamanho médio não cresceu. era um cavalinho atarracado. chamavam isso de pônei, mas eu sempre achei que fosse um defeito genético. não havia motivos pra deixá-lo solto. era feio, desnecessário e arrogante. olhava com desprezo para tudo que passasse pelo raio de seus olhões esbugalhados e usava um relógio antigo preso à pata onde acompanhava hora a hora qualquer coisa que acontecesse.
o carcará |o carcará tinha aproximadamente a idade de um elefante adulto. morava no topo da árvore grande, que dava fruto e sombra. não teve filhos, dispensava de sua dieta animais mortos ou morrendo e zelava pelo habitat dos descampados lugares tristes.
história sem fim sobre aquele lugar |era uma manhã com sol e algum vento, o carcará voltou do vôo de exercício e joaquim estava no topo da árvore grande, que dava fruto e sombra, sem amarrilho. joaquim lia um livro com capa dura forrada de tecido e as páginas eram amarelas. parecia muito concentrado, ora os olhos nas páginas e ora os olhos nas horas. o carcará sem ter onde pousar, ficou planando em circulos ao redor da árvore grande, que dava fruto e sombra causando um turbilhão invisivel no ar.
joaquim, temeroso com a atitude acrobática do carcará, resolveu descer da árvore grande calmamente, antes que viesse a servir de alimento. ajeitou a escada, e pé por pé chegou ao chão. lá, abriu novamente seu livro, na página 84 e retomou a leitura em silêncio.
o carcará então pousou na árvore grande, que dava fruto e sombra e ficou observando de longe mais uma das casinhas de madeira incendiando, estalando o vento e tingindo de cinza o horizonte. alguns homens passavam de lá pra cá com baldes e mangueiras.
joaquim entediado com o marasmo afastava com o rabinho os mosquitos. o carcará embriagado pela fumaça tóxica piscava pequenos desmaios.
ilustração> matías malizia – www.flickr.com/malizia