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Estreia em Curitiba e em várias cidades desse Brasilzão no próximo final de semana a animação 9, de Shane Acker, videomaker talentoso em pequenos trabalhos, conhecido também por ser um dos profissionais envolvidos nos efeitos especiais de Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei, no estúdio Weta Digital. A produção tem também a chancela de Tim Burton,  que garante aquele ar de fábula  dark ao material.

Um resumo geral sobre a história: 9 é justamente o número do boneco humanóide que integra um grupinho de pequenos e intrigantes seres, sobreviventes em um mundo pós-guerra. Impulsionado por questões elementares dos seres humanos – como as tradicionais perguntas “quem sou” e “por que estou aqui?” –, 9 sai em busca de respostas, o que naturalmente desafia o status quo estabelecido pelo mais velho, obviamente o de número 1. O que se segue então é uma aventura pós-apocalítica com pitadas de misticismo, capaz de encher os olhos de qualquer criança e capaz de fazer muito adulto suspirar.

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Pra começar, o trailer: diferente do que é mostrado, a animação não é “mais um filme de Tim Burton“. Tim Burton que, aliás, tem seu material autêntico mesmo na animação – ou em apenas dois ou três de seus filmes live-action. Sua originalidade vem das ideias malucas que guardava na gaveta quando ainda era apenas um dos meros animadores da equipe da Disney. O resto de sua carreira é adaptação de outras fábulas e HQs e, claro, visual sedutor. Bem, isso fica para outro post.

Enfim, sim, há um pouco de Tim Burton. Aquela melancolia com fins alegres, aquele desejo de encontrar na fantasia um pouco da realidade. Ou, como poderia ilustrar por meio de uma música, o romantismo de algo como Sad Songs For Happy Girls.

Ok, o filme. A premissa infantil se satisfaz um pouco na convenção que Hollywood criou para seres “assassináveis”: não há culpa em matar sem dó, mesmo diante dos olhos dos pequeninos, quatro tipos de seres. Dois deles estão em 9, robôs (ou construtos mecanizados, se preferir) e nazistas (ou algo que lembre nazistas). Ah, sim, os outros dois tipos são zumbis e alienígenas.

Só que a premissa infantil acaba por aí. 9 é intenso, mexe com o insconsciente coletivo em relação a temas metafísicos, à dicotomia homem/máquina, à discussão sobre inteligência artificial popularizada na ficção científica por Isaac Asimov e a trilogia Matrix, entre outros. Os personagens, todos os 9, têm complexidade notável, são bem construídos a ponto de você, logo no início, não precisar mais ver os números deles para saber quem é quem.

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O visual segue bastante a linha steampunk, retrofuturista, com a identidade visual construída a partir de elementos  da Segunda Guerra Mundial, da Era Vitoriana e da Revolução Industrial, em meio a vida digital, a autômatos mecânicos dignos das ilustrações de Geoff Darrow e Steve Skroce para a série dos irmãos Wachowski. Impossível não notar também a similaridade dos personagens com os Sackboys do game LittleBigPlanet, para PlayStation 3. Tudo é muito bem acabado, existem muitas referências gráficas ao “nosso mundo” e os detalhes chamam muito a atenção – a personagem feminina, a de número 7,  tem seus traços bem suaves, em sua pele de pano não há linhas cruzadas, deixando a textura lisa, por exemplo.

As vozes de um elenco invejável, com Christopher Plummer, Martin Landau, John C. Reilly, Jennifer Connelly e Elijah Wood, estão irreconhecíveis. Nah, isso não é uma crítica negativa. Pelo contrário. Eles conseguiram adicionar mais personalidade e alma aos personagens, sem mostrar ao público quem realmente eram por trás dos bonecos. Ou seja, não “roubaram o trovão” das criaturas.

Faz-se necessário aqui uma comparação com outra grande animação. O Omar Godoy, que trabalha comigo na Folha de Londrina, ao sair da sessão bem lembrou do superestimado Wall-EDiferente da animação da Disney, que começa muito bonito e depois cai em clichês sem graça, 9, que também explora o silêncio poético e o existencialismo em um mundo apocalíptico, é anticlímax. Tira o espectador da zona de conforto, ousa, desafia. E satisfaz.

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Enfim, aproveite o final de semana e vá ver 9. Não é exatamente um Tim Burton. Mas sabe o que? É até melhor. Ah, claro, 9 é também uma mina de ouro. Uma máquina de fazer dinheiro. Afinal de contas, quem não vai querer ter todos esses bonequinhos em casa?

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