
Mesmo se você nunca leu um quadrinho de verdade, já ouviu falar de Robert Crumb. Pai da contracultura na nona arte, o cara, que adora jazz, era em dado momento de sua carreira o equivalente aos escritores beatniks. Ajudou a questionar e trouxe a esta seara, sempre tão infantilizada, o “teor adulto”, ajudou a elevar simples traços de gibis ao status de arte. Daqui a pouco sai no Brasil seu mais recente trabalho, o livro Gênesis da Bíblia, a partir de sua ótica do mundo, claro.
Bem, a razão por eu estar escrevendo aqui essas palavras é para chamar a atenção dos leitores e fãs sobre o autor, sua obra e sua vida. Estamos diante de um outro Crumb, estivemos esse tempo todo nos últimos anos, portanto não acredite cegamente em tudo o que lê. Assim como ele mesmo nos ensinou, questione, tente entender de várias maneiras, tente enxergar o que vai além dos fáceis elogios a um artista de talento inquestionável.
A razão de eu estar dizendo isso é simples: a partir de certo momento, muita gente da mídia costuma tratar pessoas geniais, a exemplo de Crumb, como fonte infinita e estática de sabedoria. Grande erro. Como você sabe, eu mudei, você mudou, o mundo mudou. O que fazíamos há 15 anos talvez não faça o mínimo sentido hoje. Talvez moldou o que somos, mas com certeza somos bem mais complexos do que isso.

Digo isso porque é comum, sempre quando sai um novo álbum do Crumb — assim como acontecia com Eisner –, lermos enxurradas de textos cheios de adjetivos simplesmente porque as pessoas não conseguem explicar ou entender a razão pela qual o artista produziu mais uma coisa. Um misto de preguiça, imprecisão e pretensão. Todos cometemos isso, tudo bem, com menos ou mais intensidade. Todos cometem erros. Mas não precisamos continuar cometendo.
Assim que foi anunciado um novo álbum, choveram publicações, impressas ou digitais, falando sobre mais um trabalho genial de Crumb, mais um “questionamento do grande mestre da contracultura dos quadrinhos”, mais “uma crítica severa à sociedade, à religião”, mais “uma amostra da arte irônica do mais inquieto artista dos quadrinhos” e blá, blá, blá….
Grande baboseira. Muito interessante a entrevista que o próprio Crumb deu à Folha de S. Paulo, em que ele simplesmente joga todo esse tipo de crítica sobre seu trabalho no lixo. Crumb, de forma bem trivial, diz que mora na França por causa da mulher e sequer fala francês — “oh, não! quer dizer que ele não mora na França para se opor ao american way of life e ao capitalismo norte-americano?”. Em outra resposta, diz que ilustrou o Gênesis porque pagaram mais. Ele iria fazer apenas o Paraíso. Mas, depois de saber quanto ganharia, aproveitou seu inquestionável talento e desenhou mais. Bem mais, são 200 e tantas páginas.
A razão foi simples assim.
Detesto Legião Urbana, mas nunca me esquecerei das palavras de Renato Russo em uma ocasião em que pediram a ele para cantar Pais e Filhos no programa do Serginho Groissman, ainda na época do SBT. Renato se recusou a cantar e um fã queria saber a razão. Ele respondeu mais ou menos assim, pelo que lembro: “Pra mim, cantar essa música é como você fazer uma redação quando criança e ganhar uma estrela dourada por ela. Daí você cresce, conhece outras coisas, aprende outras coisas e tem outras coisas para falar. Mas as pessoas só querem que você continue lendo a redação da estrela dourada. As pessoas nem imaginam o quanto é desgastante pra mim voltar a falar sobre as coisas que falo naquela música”.

Bem, é mais ou menos por aí. Eisner mudou antes de morrer, Spiegelman mudou, McCloud mudou, Jim Lee mudou, eu mudei, você mudou. O mundo mudou. Ninguém é estático, somos todos outros.
Assim como Crumb.
Ah, sim, também aguardo ansiosamente o “Gênesis segundo Crumb“. Aqui sai muito em breve, em outubro, pela Conrad. O álbum sai com 216 páginas deve custar R$ 49,90.
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