Apesar de já termos enterrado Duchamp há um bom tempo, a visão de arte como Belo e como “bem acabado” persiste duramente na cabeça de muita gente. O “saber desenhar”, “saber pintar”, “saber esculpir” latejam na cabeça das pessoas e muitas deixam de criar e refletir sobre criação por causa do medo de “não saber fazer”.
Acho que ainda vamos levar um bom tempo para aprender a relativizar esta coisa toda muito forte que o Renascimento criou e nunca foi apagado por completo, ainda que tanta coisa tenha mudado.
muito boa sua colocação!. Seria interessante pensar também como a publicidade e o próprio capitalismo com seu poder de absorver e comercializar as coisas absorveu também este estilo “mal feito” ou “com defeito”. Há uma certa “modinha” em realizar trabalhos neste “estilo” (já foi rotulado e segmentado por publicitários, designers, ilustradores e afins…) principalmente para públicos jovens, algo similar como aquelas voltinhas e curvas usadas em “n” imagens para os mais diversos fins. Outra questão é a exagerada e sem critério exaltação do “mal acabado” do sujo e do aleatório, pode-se se ver muito isto na arte contemporânea como, por exemplo, nos trabalhos de Cy Twombly. Por um lado é interessante pensar uma estética não focada na perfeição ou eliminação de qualquer irregularidade, o que é impossível. Mas por outro lado alguns trabalhos são apenas rabiscos ou são mal feitos mesmo. Enfim, como avaliar estas diferenças e estabelecer critérios?
Concordo que tem um monte de gente se utilizando dessa “estética” para justificar trabalhos mal feitos. Mas o mal feito é sempre ruim e não merece nossa saliva…hehe. Eu acho bastante possível avaliar os trabalhos e ver como a imperfeições foram utilizadas, qual foi o critério e a adequação.
O que me assusta é a falta de discernimento entre defeito e mal feito. Post interessante Lavínia, mas como quase todo texto ele pode ser interpretado para o bem e para o mal. David Carson se apropria do defeito e faz um trabalho lindo, no entando muitos outros designers e ilustradores dizem fazer o mesmo, mas o que vemos é um mal feito justificado. Afinal existem curvas tortas e curvas tortas.
Quanto a resposta do Rafael sobre modinha: acho perfeitamente saudável, afinal, participa delas quem quer, certo? E não vejo o trabalho do Recife sendo depreciado por efeito da modinha que se instaurou. Além do que, antes do Recife houveram muitos outros e assim por diante.
Quanto a publicidade e o capitalismo: Minha opinião é, já que a arte é para todos, e o grande público hoje pouco absorve desta, vejo um lado bom no “maléfico” efeito do capitalismo e da publicidade com esses estilos, de alguma forma eles(pp. e capital.) colocam o grande público em contato com os mesmos. O trabalho do Recife mesmo esteve em um anúncio há pouco tempo atrás, vale para o Recife que é um artista e sobrevive da sua arte, e vale para o público que absorve algo diferente da produção do Hans Donner.
ótimo post.
Aquele desenho lá em cima para mim é perfeito. e esse post muito inspirador.
e…superando o medo do n saber fazer. nosso blog vai acontecendo . boa discussão essa . peterson + rafael . vamos dar uma olhadinha no ‘outros critérios’.
É isso aí. Conhecendo as meninas do Idea, estou certo que elas não querem fazer disso aqui um outro Ffffound. É preciso escrever e debater sem medo. Passei um bom tempo de faculade e pós com medo da mediocridade e percebi que, no caso de artes, o debate é o melhor meio de discutir. Nós, da área de imagem, temos o péssimo hábito de ficar ensimesmados e achar tudo um saco, déjà-vu ou fazer qualificações “criativas” como legal e bacana. Imagem tem de sobra, precisamos mais é debatê-las, né não? Aliás, precisamos fazer as duas coisas: criar e falar. Se tiver algum etílico, ainda melhor rs
Eu não diria exatamente que os defeitos dão um toque especial mas as limitações. As limitações criaram a estética que caracteriza a maioria dos estilos vizuais no design. Por exemplo, a limitação da resolução dos computadores e video games antigos criaram a estética do pixel art, as limitações da serigrafia criaram uma estética que é muito usado também em outros meios, e por ai vaí. As limitações são uma inspiração maior do que a liberdade total.
Computador é só mais uma ferramenta, não precisa abdicar dele e nem do analógico para fazer trabalhos excelentes. Por que tem de ser um ou outro? E na boa, o computador é que impede o improviso? Pra mim ele permite testes mais elaborados com maior agilidade que o papel. Errou e ficou bom command/ctrl + s, errou e não ficou bom command/ctrl + z. Apliquei um overlay numa camada sem querer mas ficou perfeito, se transformou numa textura que sequer eu teria imaginado, isto não é esse “defeito” falado no texto? Se não é, qual a diferença?
Do mesmo jeito que teve david carson e em todo lugar se discutia sobre seu trabalho, este resgate do “feito-a-mão” não passa de mais uma trend do mercado.
O texto tá legal, mas o conteúdo não passa de romantismo. Vamos voltar a realidade? Isso dá gancho pra algo pertinente… design deve seguir tendências? A resposta é não.
Se quer desenvolver soluções a curto prazo, trabalhe com publicidade, abuse das tendências, se quer ter um estilo próprio pra sua “arte” e deseja ficar pop no mundinho design internet seja artista ou ilustrador, hoje dá ibope. No design o buraco é mais embaixo.
Said, em momento algum eu falei em abdicar do computador. Aliás, deixei isso bem claro: “Evidentemente, não devemos nem podemos desprezar os recursos disponíveis que nos poupam tempo e permitem resultados excelentes.” E discordo que seja romantismo, trata-se apenas da obsevação de um fenômeno estético que estamos vivendo.
Said, eu também acredito que não haja romantismo até mesmo porque tudo hoje em dia é ‘trend’. Tudo é hiperconsumo, a imagem alimenta e se retro-alimenta aos níveis do desgaste imediato. Hoje é a Susan Boyle fazendo megashows e a Stefhany ganhando Cross Fox. Amanhã encontraremos outras para substituí-las. E isso não é nem bom nem mau, apenas é. Acho pouco difícil acreditarmos em ‘tendência’ atualmente. Ela não existe, nem em moda você algum stylist arriscando pagar mico falando “agora vai se usar…”. Os critérios são outros. Penso que os profissionais e interessados mais antenados são aqueles que associam as informações do passado com o que acontece agora. A maior tendência de todas é acreditarmos menos nas wikipédias da vida e mais na investigação.
Said,
A Lavínia tem razão sobre o fenômeno estético que estamos vivendo e já está acontecendo a super valorização do que é manual, artesanal. É como uma gangorra, vamos para um lado e vamos para outro para entrar no meio.
E claramente ela não estava falando sobre design, ai sim a pegada é mais embaixo, é um post sobre artes visuais ;)
Se existe algum critério para avaliar qualitativamente algum trabalho gráfico, artístico ou não, seriam os critérios mais técnicos que temos (composição, ritmo, etc), valores que estão empoeirados nas estantes de temas para discussão. Eu, particularmente, tento observar qualquer trabalho por dois pontos focais, o do estetética (como conjunto dessas técnicas que falei) e o da expressividade (totalmente subjetivo e individual). Eu aprecio o trabalho do Eduardo por esses dois viéses.
Achei o texto muito bom. ONunca vi alguém falando do trabalho de outrem de uma forma tão profunda.
Querida Lavínia!
Parabéns por sua luz. Estamos, sempre, num filtro de malha finíssima pela qual não conseguimos passar. Não seguimos a meia dúzia de modelos aceitáveis. Ao ler seu texto, senti um alívio e percebi quão distante estava de mim. Mais uma vez, assumi minha humanidade. Devo, sim, continuar minha jornada repleta de vida e dos meus defeitos.
Linha Tênue. Abrace o defeito agora para adorar o perfeito depois. E vice-versa.
Concordo. É a prerrogativa da arte e da expressão: um novo ciclo que nega o anterior. O interessante é analisar os motivos culturais e sociais que culminam no início de cada movimento estético. Neste caso, creio que justamente a facilidade de acesso a recursos que permitem a produção do perfeito, torne o defeito mais interessante. A prova disso é que vemos cada vez mais trabalhos com esse perfil. E, certamente, tão logo é adotada a nova estética, começa sua decadência, pois a busca de algo novo é sempre a motivação do artista.
aperfeição é uma chatice nunca gostei dela!!!!!!!!!
(não li todos os comentários acima, então, pode ser que eu teja repetindo coisas)
Hoje em dia o perfeito predomina, principalmente nas fotografias. Existe um modelo de braço perfeito, joelhos, curvas e seio. O perfeito, o belo, o “sem erro nenhum” é o que se tornou bonito e aí, quando a imagem não está “tratada”, “adequada”, “refeita”, o nosso olho clínico e cínico já identifica estas imperfeições. Como reeducar o nosso olhar? Como voltar a olhar as imagens como elas são? É um desafio.
O perfeito hoje é sinônimo de industrial.
A arte se aproximou e se apropriou dos objetos industriais, as pessoas se limitaram a uma estética industrial e agora vem o oposto disso.
A vida é um cabo de guerra e lá vamos nós.
Está rolando também uma volta ao que é da terra, ao folclórico, ao original, ao resgate da identidade atrelado ao conceito de nação transitável.
É como um momento de resistência a globalização, o indivíduo sente a necessidade saber de onde veio, a que família pertence, que influências trae, respeito das tradições, com quem ele se identifica, basicamente saber qual é a sua identidade.
Outro dia via a obra de uma polonesa que tinha o bordado típico feito na Polonia.
Os brasileiros são latinoamericanos e ao mesmo tempo vejo que eles se sentem muito desconectados do resto da América Latina sem saber que são tão parecidos. Esse não saber de onde vem, da mistura de culturas, cria o cenário do conflito de identidade brasileiro presente em muitas obras.
Por exemplo, o fotógrafo Claudio Edinger olha o nordeste do país quase com os olhos de um viajante e ao mesmo tempo encara como quem sente e participa daquilo.
Enfim, uma outra coisa que vejo que está acontecendo além da ode ao defeito. Vai que eu te inspiro em outro post, né? jeje
Lavínia,
Texto magnífico… sempre acreditei no que colocaste, que os defeitos valorizam cada ser humano, assim como a arte… e é nos defeitos que encontrarmos os detalhes mais sublimes… peço permissão para colocar um trecho do teu texto no meu blog, citanto obviamente a autora.
Abraços
Ruberto Palazo
Pois é, Rafael, no momento estou com inveja de você pelo belo trabalho no caderno de viagem rs
Bem lembrado o Cy, bem lembrada uma pá de gente bacana que discutiu isso no pós-modernismo (tá, podem jogar as pedras da razão, mas eu gostcho do pós-modernismo “oitenteiro”, sim!). A quebra de valores que nossa sociedade vive – não tou falando aqui de melhor ou pior, só de quebra, que fique frisado – se reflete também nas artes visuais como na sua pergunta: cadê critério? Falando em critério, sugiro o “Outros Critérios”, do Leo Steinberg. Antiguinho mas responde muito mais sober arte e imagem hoje do que muito tiozinho modernoso. Bom de ler.